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Visita a um fragmento de florestas do Mato Grosso de Goiás – junho de 2024

 Entre 19 e 25 de junho de 2024, estive uma vez mais na região de Pirenópolis, Goiás, em meu caminho para o estado do Mato Grosso. Baseado n...

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

DIAMANTINA – MINAS GERAIS

          Texto revisado em dezembro de 2024    

                Entre 04 e 06 de agosto de 2014, estive na cidade de Diamantina, no coração da extensa Cadeia do Espinhaço, a caminho do norte de Minas Gerais. Chamada de Tijuco, nos tempos do Brasil Colônia e Império, Diamantina foi a mais importante província diamantífera do país e ainda guarda as marcas dessa pujança, em seu casario admiravelmente bem conservado, que eu já visitara antes, durante minha primeira passagem, em 2007.

               Desta vez, tive oportunidade de examinar detidamente seus campos rupestres e percorrer algumas de suas mais belas paisagens, o que serviu para conferir muitas das hipóteses levantadas, ao longo do livro Fitogeografia do Brasil – Uma Atualização de Bases e Conceitos, em fase de edição, por ocasião desta nova viagem pelo país. Posteriormente, em 2015, o livro foi publicado pela NAU Editora, estando disponível para aquisição pelo site www.naueditora.com.br

               Veja, a seguir, alguns aspectos desta proveitosa visita, através das imagens selecionadas para compor a presente publicação:

Abaixo – Diamantina reserva algumas das mais representativas paisagens de campos rupestres do Brasil, sendo possível divisar o Pico do Itambé, de quase todos os locais





Acima – Melastomatáceas e eriocauláceas são plantas indicadoras dos campos rupestres, de forma geral, sendo elementos característicos deste tipo de paisagens, por toda a Cadeia do Espinhaço

Acima – Esculturas naturais, nos campos rupestres

Abaixo – Aspectos dos afloramentos de rocha quartzítica, em meio aos campos rupestres da região de Diamantina. A delicada palmeira-das-pedras (Syagrus glaucescens) é endêmica da região e representa elemento singular, neste tipo de ecossistema




A seguir – Esta linda orquídea Cattleya sp. pode ser observada, em flores, ao redor de Diamantina, tendo sido apontada como se tratando de C. crispata. Seu modo de ocorrência é bastante particular, adaptando-se ao ambiente contrastante dos campos entre rochas. Seu cultivo é muito difícil, fora de seu habitat, o que não recomenda sua coleta, que já foi intensamente efetuada






Esculturas naturais de Diamantina – Acima – Parece que o Aleijadinho andou pelos campos rupestres de Diamantina e deixou inconclusa a imagem da cabeça de um anjo barroco. Abaixo – Uma coruja de pedra parece espreitar o excursionista perdido entre as rochas



A seguir – A bromélia Tillandsia cf. streptocarpa forma curiosas populações, vegetando diretamente sobre os quartzitos escaldantes de Diamantina.






Acima – Pico do Itambé, em meio à paisagem dos extensos campos rupestres de Diamantina
Abaixo – Vista parcial do Arraial do Tijuco (Diamantina), lembrando imagens captadas pelos desenhos de Rugendas, no Século XIX



Acima – Bromélias tanque-dependentes também fazem parte da paisagem botânica dos arredores de Diamantina

Acima – Curiosas populações de velosiáceas (canelas-de-ema) se arranjam sobre microbacias arenosas, em meio aos quartzitos de Diamantina

Acima – Bromélias do gênero Encholirium reservam preciosas surpresas aos naturalistas, em meio à vegetação adaptada dos campos entre rochas (campos rupestres): Com suas folhas acinzentadas e formando populações densas, essas plantinhas resistem à intensa radiação solar. Recentemente (2024), foram transferidas para o gênero Dyckia, a partir de trabalhos taxonômicos que consideraram não haver consistência na separação deste gênero há muito conhecido.

Abaixo - Vista parcial de um campo rupestre, onde arvoretas adaptadas se entremeiam às rochas fraturadas e à areia quartzosa


Acima – Liquens coloridos da Cadeia do Espinhaço

A seguir – Belos cenários da Cadeia do Espinhaço, entre Diamantina, Milho Verde e Serro, podendo ser vislumbrado o Pico do Itambé, que domina a paisagem




Acima – A estradinha de terra que liga Diamantina a Serro, que representa remanescente da velha Estrada Real, vai sendo alargada e modernizada, sem que seja tomado qualquer cuidado com a flora dos campos rupestres, que lhe vai ao redor. Abaixo – Vellozia sp. Prestes a ser varrida pela terraplenagem das obras rodoviárias 


Observação posterior (18 de agosto de 2016): Meu amigo Lucas Assis trouxe valiosa informação sobre estas obras que referi acima, que transcrevo abaixo:

"A estrada que liga Diamantina à Serro está sim sendo asfaltada pelo governo de Minas, através de um programa de desenvolvimento humano e melhorias de acessos viários. Existem muitas condicionantes ambientais nesse trecho (Ibama, IEF e FEAM), uma delas é o resgate de flora ( o qual eu sou responsável). Como você sabe eu trabalho aqui, o que você provavelmente não sabe é que desde o início dessa obra milhares de plantas foram resgatadas, o Jardim Botânico de Belo Horizonte vem recebendo plantas das famílias Arecaceae, Araceae, Bromeliaceae, Orchidaceae, Eriocaulaceae, Cactaceae entre muitas outras. Lá essas plantas vem sendo cultivadas desde 2011 com sucesso, muitas florindo e sendo propagadas por sementes, um material testemunho de um lugar tão especial. Outras milhares, são plantadas pra fora do trecho impactado, cuidadosamente retiradas, plantadas em área proxima, afim de manter as populações e sua respectiva genética onde pertencem. Um resgate de flora dessa magnitude é algo grandioso e muito difícil de conseguir resultados de 100% de sobrevivência, mas saiba que eu dou o meu sangue para minimizar as perdas."

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

CATAMARCA – ARGENTINA – AS PRÉ-CORDILHEIRAS

                Texto revisado em dezembro de 2024

                A viagem de janeiro de 2006 seria um marco, para o conhecimento da fitogeografia da América Meridional e para a compreensão de diversos quadros paisagísticos que se manifestam aqui mesmo, no Brasil. Por isso, tenho resistido a tratar a Fitogeografia do Brasil em separado daquela do restante do continente. Tudo que vemos, a caminho dos Andes, mostra pedaços da história natural do restante dos territórios a leste. Entender a natureza da Plataforma Brasileira, sem lançar um olhar cuidadoso à Cordilheira, será tarefa impossível.

               Deixando para trás as planuras quentes do Chaco, entre Corrientes e Santiago Del Estero, mergulhamos mais fundo no interior da Argentina, bordejando os semidesertos centrais (que reencontraríamos mais tarde, neste e em outras viagens pela Argentina) e ascendendo os primeiros segmentos das pré-cordilheiras. Quando se elevaram as imensas massas de rocha, que formaram os Andes, desde mais de uma centena de milhões de anos atrás, foram empurradas para cima grandes extensões de áreas sedimentares muito antigas, que se dobraram em ondas de choque, que ainda ocorrem, ativamente. Surgiram, a partir desses choques contínuos, as pré-cordilheiras, que são cadeias montanhosas praticamente paralelas aos Andes, entre as quais se desenvolveram corredores evolutivos e migratórios que marcaram a flora de todo o restante da América do Sul.

              Ganhamos as primeiras pré-cordilheiras, na altura de San Fernando Del Valle de Catamarca, ou simplesmente Catamarca, no noroeste argentino. Fundem-se ali: vegetações campestres (bastante similares aos campos rupestres brasileiros); semidesertos; e vegetações relacionadas ao Chaco. É o reino das cactáceas, misturadas a bromeliáceas adaptadas à aridez e ao frio, como Tillandsia spp., Deuterocohnia spp. e Dyckia spp. O espetáculo florístico que se dependura, em despenhadeiros vertiginosos, açoitados por ventos fortíssimos, é inesquecível e nos deixou a certeza de que um dia voltaríamos a esta admirável região, para uma visita mais detalhada.


Abaixo – As paisagens da pré-cordilheira de Catamarca se mostra em muito similar àquela da Cadeia do Espinhaço, no Brasil. Sua flora, no entanto, em tudo difere, tanto quanto os traços culturais de sua gente




Acima – Detalhe de um afloramento rochoso, na região de El Alto, abrigando bromeliáceas dos gêneros PuyaDeuterocohnia e diversas cactáceas diminutas, especialmente do gênero Parodia




Adiante – Ainda nas planuras do Chaco, próximo a Santiago Del Estero, medidas singulares de economia fizeram os argentinos optar por uma rodovia com apenas UMA pista de rolamento pavimentada, que era negociada entre os motoristas, quando se cruzavam



  
A Seguir – A estonteante flora da pré-cordilheira de Catamarca, congregando quantidade impressionante de bromeliáceas e cactáceas, que mostram evidentemente a rota migratória entre os Andes e a Plataforma do Brasil







Acima – Árvores lotadas de Tillandsia cf. didisticha se debruçam sobre os despenhadeiros do Valle de Catamarca
Abaixo – Paisagens do profundo Valle de Catamarca, onde se encontra encravada a cidade de San Fernando Del Valle de Catamarca





Acima – El cardón, o imenso cacto colunar (Trichocereus atacamensis) que surge como escultura, em meio à vegetação miniaturizada dos despenhadeiros de Catamarca
Abaixo – Cactáceas do gênero Parodia florescem lindamente, enquanto se penduram na rocha íngreme do Valle de Catamarca


A Seguir – Em El Alto, numa praça pública,  um oratório foi escavado, num curioso exemplar da paineira (Ceiba cf. pubiflora – família Malvaceae)



terça-feira, 17 de setembro de 2013

CORRIENTES – ARGENTINA – ATRAVESSANDO O CHACO ÚMIDO

             Texto revisado em dezembro de 2024

                Em janeiro de 2006, atravessamos, pela primeira vez, o lendário domínio do Chaco Argentino, na região de Corrientes. A cidade de Corrientes, à margem esquerda do rio Paraná, é um marco tradicionalista, na América Meridional. Terra de história e de Chamamé (uma belíssima dança gaúcha), Corrientes é o portal do Chaco, Bioma que abarca grande parte da Argentina, Paraguai e Bolívia, tocando o Brasil em dois enclaves: Na Barra do Quaraí (ver http://expedicaofitogeografica2012.blogspot.com.br/2012/10/parque-estadual-do-espinilho-barra-do.html ), à forma de Parque de Espinilho; e na região pantaneira de Porto Murtinho, no Mato Grosso do Sul (futuramente no blog). Caracteriza o Chaco um clima frio de inverno, em contraste com um dos maiores calores da América do Sul, durante o verão. De fato, entre Corrientes e Santiago Del Estero, nesta viagem, enfrentamos calor da ordem de 43oC, enquanto no inverno as temperaturas chegam a bater ali nos -8oC.

               Entender a vegetação do Chaco e tudo o que estávamos por ver, dali em direção às Pré-Cordilheiras dos Andes, a oeste, é desafio superlativo, que não tínhamos a pretensão de cumprir, em tão curta permanência. Porém, a travessia dessas áreas subtropicais correspondeu a marco conceitual, para a compreensão de muito daquilo que vemos em nossas próprias terras brasileiras. Está ali, para ser oportunamente contada, boa parte da história natural das paisagens sul-americanas. Isso permeou fortemente a redação de meu livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL, UMA ATUALIZAÇÃO DE BASES E CONCEITOS, publicado em 2015 pela NAU Editora (www.naueditora.com.br - vendas pelo site).

               A seguir, um pouco do que vimos, no Chaco Argentino, na região de Corrientes:


Adiante – Adentrando o centro-norte da Argentina, atravessamos o Chaco, uma vegetação de natureza savânica, cuja flora se adaptou para uma alternância estacional entre calor descomunal e frio intenso. De longe, o Chaco Úmido lembra o Pantanal Mato-Grossense, com o qual confina, no Centro-Oeste do Brasil. Internamente, contudo, difere muito de nossa flora estacional semidecidual


Acima – Belo tronco de Schinopsis balansae (família Anacardiaceae), conhecido como quebracho-colorado. Juntamente com Aspidosperma quebracho-blanco (Apocynaceae), já foi madeira cobiçada, na Argentina, até sua quase completa extinção


Acima – A bromélia Pseudananas sagenarius, assim como Aechmea distichantha e Bromelia sp., é planta importante, no sub-bosque do Chaco Úmido, formando populações extensas e intransponíveis, tal como ocorre com algumas bromeliáceas de hábitos similares, no Semiárido do Nordeste, no Brasil.

Abaixo – Vista interna de um trecho da vegetação típica do Chaco, cuja semelhança com a Caatinga já fez imaginar que seriam uma só vegetação. Trabalhos recentes comprovaram terem se separado há muito tempo, ainda no Terciário



Acima – O açucará (Gleditsia amorphoides – família Fabaceae) é uma árvore comum, no Chaco Úmido, sendo compartilhada com a floresta estacional semidecidual da bacia do rio Paraná, no Brasil, de onde vínhamos, nesta viagem

Abaixo – As áreas alagáveis do Chaco Úmido são geralmente cobertas por plantas herbáceas com flores vistosas, do gênero Canna (família Cannaceae), ou por tapetes verdes de plantas aquáticas macrófitas





A Seguir – Aspectos típicos da cidade argentina de Corrientes, na margem do imenso rio Paraná