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Visita a um fragmento de florestas do Mato Grosso de Goiás – junho de 2024

 Entre 19 e 25 de junho de 2024, estive uma vez mais na região de Pirenópolis, Goiás, em meu caminho para o estado do Mato Grosso. Baseado n...

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

VISITA AO ALTIPLANO DA SERRA DA MARIA COMPRIDA – PETRÓPOLIS – RIO DE JANEIRO – JUNHO DE 2018



Tillandsia reclinata - Bromeliaceae

Em junho de 2018, subimos até o altiplano da Serra da Maria Comprida, em Petrópolis, estado do Rio de Janeiro. Nosso pequeno grupo de excursionistas era formado pelo jovem Nathan Gazineu (ver link - Nathan e as Orquídeas https://orlandograeff.blogspot.com/2011/01/nathan-e-as-orquideas.html ); pelo nosso responsável de manutenção do Jardim Fitogeográfico Ezequiel Botelho; e por mim – Orlando Graeff. Nosso principal objetivo era examinar o habitat de uma pequena bromélia de ocorrência extremamente restrita, que vem sendo perigosamente ameaçada pela coleta criminosa – Tillandsia reclinata, planta de natureza litofítica, que somente ocorre num diminuto pedaço de rocha e em mais nenhum outro lugar do planeta.
OBS: posteriormente a esta excursão, surgiram diversas notificações a respeito de novas populações de Tillandsia reclinata, todas elas situadas ali mesmo, na Serra da Maria Comprida, estando elas em fase de investigação.

Há muito, temos nos ocupado em estudar algumas raras espécies de plantas exclusivas do sistema Serra dos Órgãos, ao qual se encontra geologicamente vinculada a Serra da Maria Comprida. Além de tentar explicar esse misterioso padrão de dispersão endêmica restrita, nossa constante preocupação vem sendo investigar a pesada pressão de coleta criminosa, que tem se abatido sobre essas espécies. Mesmo tendo diminuído sobremaneira o interesse por plantas vindas da natureza, por parte dos colecionadores e amantes de plantas, o que se deveu principalmente ao notável desenvolvimento de estoques comerciais, advindos de cultivo, alguns setores não mostram sinais de exaustão, em sua cobiça por plantinhas como essas. Motiva-lhes, sabemos bem, uma vergonhosa vaidade que lhes impede descansar, até que possam dizer aos seus pares que “são alguns dos poucos a possuir determinada planta raríssima”.

Veja sobre isso nossa postagem anterior, em meu blog pessoal - Orlando Graeff Escreveu - que trata desse problema do tráfico de plantas (Link - E se todos fizessem isso? https://orlandograeff.blogspot.com/2013/01/e-se-todos-fizessem-isso-coleta-ou.html )

A coleta de plantas na natureza, com finalidades comerciais, é crime previsto na Lei do Crime Ambiental e pode ocasionar a prisão dos envolvidos. Mesmo assim, mateiros e aventureiros formam hoje uma rede complexa de coletores e traficantes, que assaltam os habitats, em busca de ESTOQUES de raridades, que lhes rendem polpudas quantias, quando remetidas aos referidos colecionadores inescrupulosos. Esse moto nocivo já determinou horrendos prejuízos à vida silvestre, em várias partes do mundo, sendo caso notório o dos rinocerontes africanos, abatidos apenas para a extração da ponta do chifre; assim como dos ainda mais conhecidos elefantes, por conta de seu marfim.

A excursão foi extremamente proveitosa, por nos permitir observar diversos ambientes e espécies que, um dia, foram contempladas pelos decisivos estudos do naturalista Gustavo Martinelli, que desvendaram a botânica e a ecologia dos campos de altitude da região. Do exame das atuais condições daquele altiplano, restou claro o alarmante estado de penúria a que se encontra submetida a pequena Tillandsia reclinata, havendo sinais claros de recente coleta comercial e estando seu remanescente cada dia mais exaurido. Também observamos que os resultados do contínuo pastoreio dos campos de altitude e afloramentos rochosos, por parte de cavalos, assim como o fogo, que continua se alastrando ciclicamente, já colocam todo o ecossistema em risco gravíssimo.

A beleza marcante das paisagens divisadas daqueles campos, assim como sua ainda interessante riqueza florística, em muito recomendariam a implantação de um parque natural, através de uma trilha contemplativa, que seria a única esperança de conservação para seu tesouro de biodiversidade. Não há mais como acreditar que o mero abandono da área possa desestimular invasões furtivas e depredações, apenas confiando na dificuldade de acesso. Somente o manejo ecoturístico e a facilitação da vigilância e combate ao fogo poderão trazer esperanças de salvação ao patrimônio natural local.
OBS2: Também à posteriori a este artigo do blog, a área foi contemplada pela criação de uma Unidade de Conservação denominada MONUMENTO NATURAL DA MARIA COMPRIDA, que já serviu para dar alento à causa de sua conservação. Porém, seu status de proteção é irrisório e ainda faltará intensa fiscalização e implementação de manejos que a protejam.

Veja, através das imagens apresentadas, um pouco sobre o altiplano da Serra da Maria Comprida:


Acima – A Serra da Maria Comprida é geologicamente vinculada à Serra dos Órgãos, muito embora possua individualidade geomorfológica, representando universo ecológico próprio, com pontões graníticos e gnáissicos fragmentados. Escorrimento milenar de água produziu “riscados” típicos e os paredões abrigam flora única


A Seguir – A vegetação do altiplano é um mosaico de afloramentos rochosos e campos de altitude, mesclando assim floras complementares, originadas em paleocampos frios e evoluídas em ambientes rochosos secos e ensolarados


Acima – Não é difícil perceber-se o dano gradualmente imposto à vegetação e à flora pela ocorrência recidiva do fogo criminoso. As manchas de campos recuam e a composição da flora se empobrece, em favor de gramíneas exóticas e de algumas poucas espécies nativas mais tolerantes aos incêndios cíclicos


Acima – Nesta imagem, percebe-se exemplares isolados de rabo-de-galo (Worsleya procera – família Amaryllidaceae) resistindo ao avanço da degradação. Ao fundo, o restante do maciço da Maria Comprida, com a Serra dos Órgãos ao fundo e os Três Picos ao longe


Acima – Embora já bastante pressionados pelo fogo, pela coleta criminosa e pelo pastoreio, persistem populações de rabos-de-galo, que preferem a beirada das cristas rochosas, onde recebem farta iluminação solar e conseguem escapar à coleta criminosa


Acima – Meus dois companheiros de aventura, na Serra da Maria Comprida: Ezequiel Botelho e Nathan Gazineu




Acima – Notáveis populações de bromélias e plantas adaptadas ao ambiente extremo dividem espaço no altiplano da Serra da Maria Comprida. Destaque para belas formas de Vriesea pseudoatra, com folhas vináceas, que contrastam com o restante da vegetação



AcimaPerspectiva assustadora: em primeiro plano, o rabo-de-galo em flores; ao fundo, na borda do campo e debruçado sobre o vale, um exemplar de pinheiro-americano invasor. Essas coníferas exóticas da aliança de Pinus elliottii são extremamente prolíficas e adaptadas ao ambiente de solos rasos, pobres e sob climas frios, o que lhes capacita perigosamente a tomar por completo em futuro médio, a paisagem das cumeadas

Adiante – Flora singular ainda resiste nos campos de altitude e afloramentos rochosos da Serra da Maria Comprida


Acima – Philodendron edmundoi (família Araceae)


Acima – Zygopetalum maculatum (família Orchidaceae)


Nas três fotos a seguir – A bela Prepusa connata, da família Gentianaceae, um elemento florístico de índole originalmente alpina





Acima – Ilha de vegetação rupestre, congregando dois tipos diferentes de bromélias: a imensa e escultural Alcantarea imperialis; e sua parente muito menor Neoregelia longipedicellata, planta muito restrita e rara


Acima – A célebre Amaryllidaceae Worsleya procera, conhecida como rabo-de-galo, planta exaustivamente perseguida pelos traficantes de plantas
Abaixo – Orlando Graeff (autor do blog) entre rabos-de-galo, no alto da Serra da Maria Comprida




Acima – Como resistir ao encanto de Worsleya procera? Nathan se debruça sobre a bela planta
Abaixo – Fotografando as flores do rabo-de-galo




Acima – Quanta honra! Examinando o único exemplar conhecido do bambuzinho primitivo Glaziophyton mirabile (família Poaceae)

Adiante – Consegue ver aquelas minúsculas plantinhas, encarapitadas sobre alguns poucos metros quadrados de rocha nua? São tudo o que a natureza ainda guarda da raríssima bromélia Tillandsia reclinata. É ou não é razão bastante para preocupação, em face da coleta criminosa que sobre ela se abate?


Abaixo – Poucos exemplares resilientes de Tillandsia reclinata buscam proteção sobre a rocha, penduradas acima de centenas de metros de paredões rochosos. O engenho maligno dos coletores furtivos, contudo, não as perdoará, em nome da cobiça nojenta de colecionadores, que pagarão altos preços por algumas plantinhas



segunda-feira, 7 de maio de 2018

A VISIT TO SERRA DOS PIRINEUS – STATE OF GOIÁS – PART I: THE HABITAT OF TILLANDSIA BARROSOAE (English Version)



above – Inflorescences of the bromeliad Tillandsia barrosoae, endemic species from Serra dos Pirineus

During his visit to the Herbarim Bradeanum (HB), sited in Rio de Janeiro, Brazil, in August 1997, the botanist Walter Till, from the Institute of Botany of University of Vienna, in Austria, noticed that some of the bromeliads, that had been collected years before (1967), by Dr. Graziela Maciel Barroso and which had been identified by Lyman Smith as Tillandsia lorentziana might be in fact a different especies from the genus Tillandsia. The researcher figured out that those plants were related rather to Tillandsia didisticha than to T. lorentziana. Though Tillandsia didisticha has its natural area of occurrence on the borders of Bolivia to Paraguay and Argentina, those plants had been collected by Dona Grazi (as they called Graziela Maciel Barroso, in the Botanical Garden of RJ) in Serra dos Pirineus, state of Goias.

The plant was published as a new species for science, in 1998 in the BROMÉLIA MAGAZINE of Brazilian Bromeliad Society-SBBR, and was named by Till as Tillandsia barrosoae, in a well deserved tribute to its colector Graziela Maciel Barroso, already considered the most important botanist of South America. A few years later, in 2001, I would visit a portion of the area of occurrance of this plant, near Pirenópolis, in the state of Goiás, but it was a very fast passage. Returning from Mato Grosso state, in march 2018, I sensed that I would find them in flowers, which led me to divert my route a little to the region, hoping to make photographic records and to investigate the phytogeography of Serra dos Pirineus.

I couldn´t find them in flowers, as I thought I would, but of course I didn´t lose the opportunity to examine closely the habitat, taking notes about its state of conservation, together with some other observations on the flora of that mountain range, which is very unique. Tillandsia barrosoae is endemic to Serra dos Pirineus and has a very narrow area of occurrence even within those mountains, related to the Arco da Canastra–Brasília, a disjunction of the very extensive Cadeia do Espinhaço, a chain of quartzite mountains that crosses part of NE and SE Brazil.
Please check bellow some aspects of this visit, in the following pictures:

Following – Serra dos Pirineus is topped  by a lot of quartzite boulders that suggest ancient denudation, related to the erosion of Arco da Canastra–Brasilia, affected by periods of  diaclase, in a landscape very difficult to be interpreted, due to the risk imposed to hikers by deep cracks. But that will help Tillandsia barrosoae to escape from the hands of criminal collectors







Above – Tillandsia barrosoae is an essentially lithophytic bromeliad. Not a single plant will be found on the branches of the small trees around the boulders, even though you can find lots of Tillandsia streptocarpa growing on those bushes



Above – Some plants of Tillandsia barrosoae like to hide on corners or shaded parts of the steep boulders


Above – Threatening rock mounds seem to have been arranged by human hands. 
Tillandsia barrosoae vegetates on the hard surface of the stones, tolerating diurnal variations 
of temperature and humidity that other plants would not tolerate



Above – The small and brave lithophytic bromeliad appears to face a promising renovation process and you can find younger plants, side by side to the older ones. Criminal collectors seem to represent the most serious threat to the species, as they work to supply plant lovers all over the world

Following – Some other interesting plants can be found in the place, together with Tillandsia barrosoae. The most remarkable are: Aechmea bromeliifolia (Bromeliaceae), Pilosocereus vilaboensis (Cactaceae), Vellozia spp. (Velloziaceae). Small trees and bushes like Clusia criuva, Clusia burchellii ( Clusiaceae) e Schwartzia adamantium (Marcgraviaceae) form the dominant tree layer





Above – Big specimens of Aechmea bromeliifolia vegetate on rocky decks but also growing on tree branches or trunks, in the middle of the tiny woods


Above – A delicate orchid - Bulbophyllum epiphyticum – also shows around, sometimes growing on branches, but also inhabitting the straight rocky surface or crevices, side by side with Tillandsia barrosoae


Above – Sinningia aggregata  (Gesneriaceae) is quite common in the place and carries large tubers that look very alike to the rock itself



Above – The delicate Orange flowers of Alstroemeria cf. viridiflora (family Alstroemeriaceae), among the boulders da Serra dos Pirineus

FollowingThe cladodes of the Pilosocereus vilaboense cactus are a spectacle apart, in the landscape among the rocks of the Pirineus, showing sculptural forms or forming elegant sets



Below – Micro-landscapes, formed by trunks and branches tangled together, confuse our eyes, among the boulders, in Serra dos Pirineus. It´s difficult to discern what is rock from what is wood


BelowLithosols are all that can be found, around the large amount of boulders in the area, being quartzite the most remarkable element. The vegetation is there classified as cerrado rupestre de altitude (high altitude rocky savannah), sometimes opening space to grasslands spotted on rock base, or to a kind of rocky field, where the intergrades are hard to discern. All of that belongs to the famous CERRADO complex.


Above – At the borders of the rocky outcrops, you can find small trees of Mimosa regina (Family: Fabaceae). They will gather in homogenous populations, all over the open grasslands


Above – The elegant tree, from the Melastomataceae family (Tibouchina papyrus), is known as the papyrus-tree. They say it represents the plant-symbol of the city of Pirenópolis


Above – View of a rock based grassland (a moisty grassland), in which can be seen a small stemless palm-tree (Butia archeri), amidst the bushes


Above – The beautiful Vochysia rufa, belonging to the Vochysiaceae Family, showing it´s gorgeous yellow flowers, in the middle of the vast cerrado open landscape


Above – The orchid Epistephium sclerophyllum prefers the sunny borders of the tiny woods that grow along the small streams and are locally known as matas ciliares


Above – One of the several waterfalls that can be found, in the region of Serra dos Pirineus


Above – View taken inside the evergreen forest (mata ciliar), with a nice and cristal-clear pond, in Serra dos Pirineus


Above – The author Orlando Graeff examining a specimen of the bromeliad Dyckia cf. weddelliana, in the middle of the rocky savannah, in Pirenópolis

Below – Grassland landscape, at Serra dos Pirineus, highlighting the famous Morro do Cabeludo (Cabeludo Peak), kind of a testimony quartzite-rock formation, which marks the most elevated spot in Parque Estadual dos Pirineus (Pirineus State Park), more than 1.300m high



Thanks to Paulo Padilha, who safely guided me through all the Pirineus ecosystems

domingo, 8 de abril de 2018

SERRA DOS PIRINEUS - GOIÁS - PARTE II: VISITANDO AS CACHOEIRAS DOS DRAGÕES, NA SERRA DOS PIRINEUS, GOIÁS – MARÇO DE 2018


Acima – A cachoeira denominada Dragão Verdadeiro, na reserva das Cachoeiras dos Dragões, é um tesouro de belezas cênicas e riqueza botânica

Se me fosse pedido um exemplo notável de ambiente natural, no qual se pudesse estudar o cerrado rupestre de altitude, talvez me viesse à mente a famosa Chapada dos Veadeiros, centenas de quilômetros ao norte de Brasília (DF), hoje protegida pelo Parque Nacional de mesmo nome. Contudo, se fosse necessário um lugar de relativamente fácil acesso aos pesquisadores e universitários da Capital federal, ou de Goiânia (capital de Goiás e uma das principais cidades do Centro-Oeste), eu teria sugestão bastante significativa: a reserva das Cachoeiras dos Dragões, ao largo da pequena e bucólica Pirenópolis, cidade histórica goiana.

Na véspera de minha visita a este belo lugar, meu guia Paulo Padilha, que me guiara pelo ecossistemas da bromélia Tillandsia barrosoae (ver postagem anterior - http://expedicaofitogeografica2012.blogspot.com.br/2018/04/serra-dos-pirineus-goias-parte-i.html ), impossibilitado de acompanhar-me neste segundo dia de expedição, recomendara a visita à reserva das Cachoeiras dos Dragões. Sua advertência de que a entrada no local se veria acompanhada de severas restrições, tais como não fumar, não beber ou carregar bebidas alcoólicas e aparelhos de som; ou de não portar facas e outros instrumentos do tipo; e de guardar silêncio e respeito ao ambiente, operou efeito exatamente inverso ao que faria em boa parte dos potenciais visitantes – desejei ainda mais conhecer lugar como aquele!

A reserva (em fase de reconhecimento como RPPN) pertence  ao Mosteiro Budista Zen Eisho-ji, que abriga seguidores desta linha do Budismo, sendo principalmente mulheres, que guardam o lugar com extremo cuidado e simplesmente não permitem a entrada em termos contrários aos acima expostos. Isso seguramente tem mantido longe visitantes que não se coadunam com os princípios conservacionistas e vem servindo para conservar esplendidamente sua natureza pródiga. Contando com ao menos umas oito belas cachoeiras, a reserva abriga flora biodiversa do Cerrado, além de fauna importante, como viria a constatar, mais tarde.

O principal atributo botânico da área, sem qualquer dúvida, é o estado de conservação de extensos fragmentos daquela vegetação de cerrados rupestres de altitude, que vem sendo reputada como possível polo difusor de espécies adaptadas, que teriam ocupado importantes nichos ecológicos na vegetação do cerrado stricto sensu (aquela forma de cerrado aberto e savanizado). Ao longo do Terciário Superior e do Quaternário, a progressiva dominação do Clima Tropical do Brasil Central teria promovido a expansão dessa tipologia, que viria a se tornar a matriz do Bioma Cerrado. Em meu livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL, UMA ATUALIZAÇÃO DE BASES E CONCEITOS (NAU Editora, 2015 – ver link http://expedicaofitogeografica2012.blogspot.com.br/2015/10/o-livro-fitogeografia-do-brasil-uma.html - vendas através do site www.naueditora.com.br), tratei este tema com muito cuidado e surgia agora, uma vez mais, oportunidade de conferir as hipóteses com as quais trabalhei.

Aproveite, a seguir, um pouco das belas imagens da reserva das Cachoeiras dos Dragões, em Pirenópolis, acompanhadas como de costume pelas observações a respeito de sua natureza:

A Seguir – As velhas camadas de quartzito, que um dia andaram sepultadas sob densos mantos sedimentares Pré-Cambrianos (alguns dos mais antigos do Planeta), foram exumadas por admiráveis torrentes erosivas do Terciário Superior e Quaternário, deixando-se então colonizar por incontáveis espécies de plantas adaptadas à severa radiação solar do Brasil Central. Essas espécies formaram comunidades características, que se transformaram no cerrado rupestre, que passou a se adaptar igualmente à crescente elevação de altitude relativa, ao sabor da elevação epirogênica do Brasil Oriental, transformando-se no CERRADO RUPESTRE DE ALTITUDE


Acima – Interessante mosaico de paisagens relacionáveis ao cerrado rupestre de altitude, na Serra dos Pirineus (Cachoeiras dos Dragões), sendo possível divisar, em primeiro plano, a vegetação típica; além de campos úmidos, vegetações ciliares (nos canais de rios) e até mesmo fragmentos de cerrado stricto sensu, nas cimeiras planálticas ao longe


Acima – Por sobre as fendas e placas fragmentares de quartzito, surgem árvores adaptadas, que são capazes de se espremer pelas brechas profundas, descendo a dezenas de metros, para buscar seu sustento fundamental: água e nutrientes (em primeiro plano – o cajuí Anacardium humile, da família Anacardiaceae). Entre elas, jardins de pedras e de plantas criticamente adaptadas


Acima – Um exemplar de pau-papiro (Tibouchina papyrus – Família Melastomataceae) se espreme insistentemente entre as bordas de uma rachadura na rocha, no cerrado rupestre de altitude


Acima – Cenário típico do cerrado rupestre de altitude, nas Cachoeiras dos Dragões


Acima – O fator determinante para surgimento dos campos limpos, neste lugar, parece mesmo ser a saturação de umidade, sob solos muito rasos, que cobrem duríssimo embasamento rochoso. O surgimento e orientação dos canais fluviais (centro), assim como de lajes coesas de quartzito escurecido (ao fundo, nos campos) confirma o diagnóstico. Podem ser avistadas velhas cimeiras planáltica de chapadas erodidas, onde vegetam cerrados típicos


Acima – Cenário dramático, conquanto belo, no qual o colo de uma arvoreta se espessou, originando volumoso calo suberoso, que funciona como entreposto de passagem da seiva bruta, vinda das profundezas da terra


Adiante – Pavimentos do mais duro quartzito se fragmentam de modo até decorativo e abrem espaço para plantas herbáceo-arbustivas adaptadas ao ambiente extremo do cerrado rupestre. As plantas da família Velloziaceae, como essas Vellozia cf. flavicans, são elementos importantes e caracterizam a paisagem






Anteriores – Flores de Vellozia cf. flavicans


A SeguirVellozia caruncularis é a espécie de menor porte da família, no cerrado rupestre de altitude e vegeta em finos substratos de areia quartzítica alva



Adiante – Outro elemento característico da paisagem dura do cerrado rupestre de altitude das Cachoeiras dos Dragões é a cactácea Pilosocereus vilaboensis, que também abunda nos matacões de afloramentos visitados na véspera




A Seguir – O aspecto mais notável das relações do homem com os cerrados rupestres de altitude da Serra dos Pirineus é a tradicional mineração da chamada Pedra de Pirenópolis, que nada mais é que a lâmina desplacada do quartzito, que se presta admiravelmente bem à construção civil: pisos, bordas de piscinas e até pavimentos rodoviários são confeccionados com essas pedras, que são retiradas da natureza, entre outros lugares, na estrada que conduz à reserva das Cachoeiras dos Dragões



Acima – Cava de extração de pedras de Pirenópolis, que terminou represando a água que circula sob o solo, formando um lago, com águas cristalinas. Ao fundo, parte da reserva das Cachoeiras do Dragão e terras limítrofes


Acima – No interior da reserva das Cachoeiras dos Dragões, antiga lavra de pedras de Pirenópolis forma como que decorativo monumento-testemunho, onde as pedras extraídas se amontoam sobre a lavra, confundindo-se os dois estratos

Abaixo – A marcgraviácea Schwartzia  adamantium pode variar de porte, entre um arbusto que se debruça sobre matacões de pedras e até uma arvoreta de porte considerável, tal como esta da foto



Acima – A bela Cuspidaria sceptrum (Família Bignoniaceae), que decora o ambiente árido do cerrado rupestre, na Serra dos Pirineus


Acima – Allamanda angustifolia (Família Apocynaceae)


Acima – Curiosa orquídea do gênero Habenaria, no ambiente intersticial do cerrado rupestre de altitude


Acima – Lindas flores da melastomatácea Chaetostoma stenocladon


Acima – Ipomoea sp. (Família Convolvulaceae)


Acima – Flores de Kielmeyera cf. coriacea (Família Calophyllaceae) – pau-santo



Acima – Chresta speciosa (Família Asteraceae)


A Seguir – Os mais esplêndidos cenários da reserva são mesmo as suas cachoeiras, todas tendo recebido nomes relacionados ao Dragão, figura importante para os budistas, com todo seu simbolismo. Todas se encontram admiravelmente conservadas, praticamente sem qualquer sinal de degradação. Veja algumas delas:

Abaixo – Cachoeira Dragão do Céu, com límpido poço de águas cristalinas e esverdeadas



Abaixo – Uma das mais belas e altas, a Cachoeira Dragão Verdadeiro, com paredões rochosos repletos de plantas


Abaixo – A Cachoeira Dragão Voador, também uma das mais altas e bastante elevada em altitude



Acompanhe os links de alguns vídeos que efetuamos, na reserva das Cachoeiras dos Dragões, que dão excelente ideia dos cenários visitados:




Adiante – Alguns elementos florísticos acompanham a vegetação luxuriante das faixas marginais dos rios, beneficiando-se da umidade e da regularidade de temperatura da floresta


Acima – Thaumatophyllum cf. mello-barretoanum (Família Araceae)


Acima – Dois estipes delgados dos palmiteiros Euterpe edulis (Família Arecaceae) se superpõem na fotografia, fazendo parecer palmeira única, com duas frondes, numa elegante ilusão de ótica


Acima – Densas touceiras de Philodendron mayoi (Família Araceae) recobrem as paredes da Cachoeira Dragão Verdadeiro, tirando partido do ambiente saturado de umidade.
AbaixoPhilodendron mayoi também vegeta de forma própria, como epífita, nos troncos que cercam o salto




Acima – Infelizmente, toda essa riqueza das matas ciliares das Cachoeiras dos Dragões vem retrocedendo, ano após ano, mercê de incêndios criminosos, ateados por fazendeiros limítrofes, nos meses mais secos e quentes do ano. Neste trecho, observa-se destruição total da floresta, após o último incêndio



Anteriores – Exemplares da palmeira acaule Attalea cf. exigua, que é o catolé ou indaiá-do-campo. Goiás é rica em palmeiras, que ainda demandam estudos botânicos e vêm revelando novidades


Acima – Sobre as rochas que circundam a Cachoeira Rei do Dragão, observam-se exemplares floridos de uma velosiácea do gênero Barbacenia

 A Seguir – Exatamente nesta área mais elevada da reserva, foi observado o admirável urubu-rei (Sarcoramphus papa – Família Cathartidae), uma das aves mais ameaçadas de nossa fauna. Esta ave vem experimentando boas condições de conservação, na reserva das Cachoeiras do Dragão, o que deve ser considerado fato relevante








Acima – O autor Orlando Graeff junto à Cachoeira Dragão Verdadeiro 

Abaixo – A bucólica Pirenópolis é destino dos mais agradáveis, no Centro-Oeste