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Visita a um fragmento de florestas do Mato Grosso de Goiás – junho de 2024

 Entre 19 e 25 de junho de 2024, estive uma vez mais na região de Pirenópolis, Goiás, em meu caminho para o estado do Mato Grosso. Baseado n...

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

ARGENTINA – ENTRE OS RIOS PARANÁ E URUGUAY, OS PALMARES

                Texto revisado em dezembro de 2024


               A segunda fase da Expedição Fitogeográfica 2012 nos levou à região de Entre Rios, uma província argentina cujas paisagens entremeiam campos inundáveis e florestas ciliares, possuindo flora muito particular. Passamos por ali, no dia 4 de outubro, no caminho do Rio Grande do Sul. Suas terras notavelmente planas foram formadas pelos sedimentos originados principalmente no Brasil, Uruguay, Paraguay e parte do norte da Argentina, sendo o Quaternário o período responsável pela maior quantidade de materiais que formam seus solos.

               Próximo à localidade de Ubajay, junto ao rio Uruguay, encontra-se situado o Parque Nacional El Palmar, uma preciosa reserva de vegetação singular, formada quase que exclusivamente por palmeiras da espécie Butia yatay. Assim como os palmares que visitáramos no leste do Uruguay, na região de La Coronilla (ver postagem do dia 27 de setembro – La Coronilla – Uruguay – Onde a Pampa Encontra o Oceano), essas grandes palmeiras formam populações quase homogêneas, cuja origem pode ser associada ao homem. A vegetação original, conquanto contemplasse essa espécie muito ornamental, deveria estar relacionada aos espinilhos, hoje quase extintos.

               As palmeiras de El Palmar possuem aproximadamente a mesma idade, no que muito se assemelham aos palmares de La Coronilla. Porém, aqueles do litoral do Uruguay são formados pela espécie congênere Butia odorata e sugerem vegetação campestre, o que se deve ao manejo intenso do gado bovino. Os butiás da Argentina, por estarem protegidos num Parque Nacional, permitiram alguma regeneração de formas arbóreas de vegetação, assim como de indivíduos jovens ou com idades mais variadas, uma vez que escapam do constante pastoreio. Assim como aqueles, habitam terrenos de natureza arenosa e com saturação constante de umidade.

               Nas imagens a seguir, é possível apreciar os interessantes aspectos das paisagens botânicas da província de Entre Rios, muito especialmente dos seus notáveis palmeirais nativos:


Nas Fotos a Seguir – Vastas pastagens ocupam os campos inundáveis, no estuário do Prata, sendo possível notar que já ocorreram florestas subtropicais inundáveis, num complexo mosaico, hoje completamente convertido num curioso tipo de savanas-parque.




Adiante – Aspectos dos extensos palmeirais de Butia yatay do Parque Nacional El Palmar, na província de Entre Rios, na Argentina.








Acima – A região leste da província de Entre Rios encontra-se quase completamente coberta por eucaliptais, que cercam o Parque Nacional El Palmar, ocasionando severa pressão sobre os palmeirais nativos e a vegetação do espinilho.


 Acima – Um fragmento de vegetação de índole florestal, relacionada ao espinilho, acompanha uma zona deprimida do Parque El Palmar, ao longo de um riacho, que cai na margem direita do rio Uruguay, poucos quilômetros abaixo. Fora daí, contudo, as autoridades ambientais argentinas vêm mantendo a hegemonia das palmeiras através do manejo planejado com o fogo.

Abaixo – Uma canhada representa área de afloramento do lençol freático, por vezes caracterizado por águas paradas, onde nadam aves nativas, protegidas das espingardas argentinas. Notar a ocorrência de árvores, ao redor, assim como das palmeiras-butiá.


A Seguir – A margem do rio Uruguay, que separa Argentina e Uruguay


Abaixo – Inflorescências de um ombué ou umbu – Phytolaca dioica (família Phytolacaceae) – árvore muito importante da flora regional, que também ocorre no Brasil.



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

LA CORONILLA – URUGUAY – ONDE A PAMPA ENCONTRA O OCEANO

                Texto revisado em dezembro de 2024


               O litoral uruguaio é um conjunto de paisagens singulares, onde o oceano revolto explode contra praias semisselvagens e pontões rochosos de granito rosa, tendo em frente a si as mais admiráveis paisagens da Pampa Meridional: Fazendas de extensas pastagens verdejantes, nos quais pastam rebanhos do mais puro gado europeu. Durante um pequeno período de verão, localidades como Punta Del Leste – o mais famoso balneário uruguaio – La Paloma e alguns outros chegam a ficar repletos de veranistas, que aproveitam a janela de calor e sol. Nesta época do ano, em que por ali passamos, em nossa Expedição Fitogeográfica 2012 (24 e 25 de setembro), a região costuma estar bem vazia, tendo sido esta exatamente a intenção, de forma a não concorrermos com o turismo, em nossas atividades científicas.

               Não contávamos, evidentemente, com a forte frente fria que se deslocou tardiamente da Antártida e avançou sobre Uruguay e Brasil, chegando a produzir neve na região dos campos de cima da serra, de onde viéramos, dias antes. O agradável Hotel Jardim Oceânico, em La Coronilla, que se tornou a sede de nossas atividades, enquanto examinávamos as paisagens naturais da região, transformou-se num abrigo invernal, com a lenha queimando nas lareiras de seu amplo salão, produzindo ambiente alpino e fazendo-nos esquecer, ao lá dentro estarmos, que nos encontrávamos poucos metros distantes do Oceano.

               As andanças pelos campos e morros, ao redor da Laguna Negra, onde se concentravam nossos interesses, se transformaram em penosas atividades, sob temperaturas que variavam de 6oC e 8oC e ventos cortantes, que dificultavam sequer a produção de imagens, fora do automóvel. Chuvas ocasionais se alternavam a momentos de céu claro e a sensação térmica era negativa. Mas, como não poderia deixar de ser, tivemos sucesso, uma vez mais, na observação e interpretação das paisagens botânicas dessa região limítrofe ao Rio Grande do Sul, na qual encontramos importantes informações sobre os ecossistemas relacionados à Pampa – como temos preferido nos referir ao curioso bioma dos campos sulinos, assim, no feminino, como é tratado no cancioneiro nativo.

               Veja a seguir algumas imagens que dão conta dos cenários do litoral uruguaio, sempre imaginando como foram elas obtidas, debaixo do rigor do vento Minuano, que tem grande responsabilidade na origem de seus cenários:

A Seguir – As áreas mais deprimidas, ao redor da Laguna Negra, exibem campos sobre solos saturados de umidade e até mesmo áreas pantanosas, onde se abrigam aves as mais diversas. Seu mais admirável habitante é mesmo o cisne do-pescoço-negro, que forma bandos numerosos.




Abaixo – O lento processo de assoreamento e eutroficação dos banhados, de entremeio às colinas arredondadas de La Coronilla e Laguna Negra, é capitaneado por vastas populações de ciperáceas (Cyperus sp.), que toleram o ambiente encharcado.



Adiante – Qualquer elevação do terreno, onde as árvores consigam meter suas raízes, acima do lençol freático suspenso da Pampa, permite o surgimento de florestas subtropicais. Não há dúvidas de que outrora essa região era composta por mosaicos complexos de vegetações abertas e florestas subtropicais. Hoje, torna-se difícil sua interpretação – Mas não há como negar o legado decisivo das ações humanas.



Cerros (como são chamadas as serras montanhosas no Uruguay) de matacões rochosos se elevam até mais de uma centena de metros, numa região em que as altitudes giram monotonamente ao redor dos 15m. Nessas morrarias, medram florestas subtropicais, com arranjos florísticos bastante particulares, apesar de muito alterados pelo homem.


Abaixo – Tillandsia aeranthos foi a única bromeliácea epífita observada nessas matinhas enfezadas de La Coronilla.



A Seguir – Os lendários palmares de butiás (Butia odorata) são indubitavelmente a paisagem botânica mais admirável da região da Laguna Negra. Paira certo caráter enigmático em torno de tão vastas populações homogêneas de palmeiras, espetadas sobre os campos de solos saturados de umidade dessa parte do Uruguay. Não se pode ter dúvidas, no entanto, de sua origem antrópica e associada ao pastoreio do gado – Não existem plantas jovens nas áreas de pastagem, somente surgindo fora dos aramados, onde escapam do gado.







Acima - Ema solitária na Pampa

Abaixo – Aspecto de uma canhada – como são chamados os pequenos cursos d’água que cortam serenamente os campos sulinos. As florestas ciliares nos mostram bastante sobre a flora da região.






Acima - A Fortaleza de Santa Teresa remonta ao período colonial, quando Portugal e Espanha disputavam as terras que hoje pertencem ao Uruguay. O granito rosa, de que é feito, agregou-se de linda camada de liquens que o tornaram amarelado, chamando atenção à distância.

Abaixo – Fragmentos da vegetação subtropical litorânea ainda podem ser admirados, próximo à Fortaleza de Santa Teresa, sendo hoje raros, pela intensidade da exploração florestal, cujo principal elemento produtivo é o eucalipto.





A Seguir – O Mar revolto briga incessantemente com os afloramentos de granito rosa que, terra adentro, abrigam excepcionais regiões vinícolas.



terça-feira, 25 de setembro de 2012

CAMPOS NEUTRAIS – BANHADOS DO TAIM E RIO GRANDE

                Texto revisado em dezembro de 2024


               A Expedição Fitogeográfica 2012 continua: Entre os dias 23 e 24 de setembro, partindo de Caxias do Sul, onde se fizera uma pausa, deixamos a região dos campos de cima da serra e da Araucarilândia, para adentrar de vez na região dos Pampas, que posteriormente adotei tratar pelo verbete feminino A PAMPA, em meu livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL, UMA ATUALIZAÇÃO DE BASES E CONCEITOS (NAU Editora, 2015). Uma parada foi realizada em Rio Grande, na barra da Laguna dos Patos, tendo completado a região dos Campos Neutrais, no dia seguinte, quando atravessamos os Banhados do Taim.

               Esta fase da viagem foi fundamental para compreender a natureza dos campos da região lagunar e litorânea do Rio Grande do Sul, cuja área mais típica encontra-se nos Banhados do Taim. Tratam-se de campos sobre solos saturados de umidade e possuem inegável influência humana, conduzida através de diversos séculos de exploração pecuária e agrícola.

               Foram outrora complexos mosaicos de florestas subtropicais e vegetações de índole palustre e campestre. Hoje, apresentam-se generalizadamente abertas, restando alguns fragmentos da vegetação florestal palustre, onde avistamos também vistosas populações da orquídea Cattleya intermedia, que havíamos observado nas várzeas catarinenses, dias antes.
A seguir, algumas imagens obtidas na passagem pelos Campos Neutrais, antes de adentrarmos o Uruguay:

Imagens a seguir – A bela orquídea Cattleya intermedia, que avistáramos em Santa Catarina, dias antes (ver - Uma Floresta Atlântica Subtropical Existiu Aqui – Litoral de Santa Catarina postagem do dia  17/09/2012), encontrava-se também em flores sobre as árvores que circundam os pantanais de Rio Grande.







A seguir – Aspectos da floresta subtropical que circunda o sistema lagunas dos Patos: As árvores dominantes são Erythrina crista-galli (família Fabaceae), Ficus organensis e Ficus guaranitica (família Moraceae), sendo também as principais árvores-suporte das orquídeas e bromélias da região.




Abaixo – A bromélia Tillandsia aeranthos é uma das espécies mais abundantes das regiões de fortes ventos dos campos sulinos. Vegetam até mesmo em praças e ruas das cidades.



Adiante – Aspectos da cidade portuária de Rio Grande, na Laguna dos Patos. O nascer do dia, de cores douradas, prenunciava dias frigidíssimos, que sobreviriam.




A Seguir – Algumas atraentes imagens dos Campos Neutrais, na região dos Banhados do Taim: Campos sobre solos saturados de umidade e florestas subtropicais.