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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

RPPN DO SALTO MORATO – GUARAQUEÇABA – Paraná – dezembro de 2015

                Texto revisado em janeiro de 2025

                O dia 09 de dezembro de 2015 foi dedicado a conhecer a famosa RPPN do Salto Morato, em Guaraqueçaba, litoral do Paraná, aonde chegáramos, durante nossa expedição. Salto Morato é o nome de uma bela cachoeira, que despenca das escarpas da Serra do Mar, de altura superior aos 100m, impressionando mesmo de longe os viajantes que se aventuram por estes ermos. A Fundação Boticário implantou, com muito sucesso, essa reserva natural, embora a infraestrutura rodoviária e turística do Paraná em nada favoreça sua visitação (ver postagem anterior).

                Foram oito quilômetros de trilhas, num só dia, sob calor escaldante, cuja sensação se agravava com a umidade intensa desta época chuvosa. A temperatura andou por volta dos 31oC, o que não chegaria a rivalizar com alguns lugares já visitados, pelo Brasil. Porém, com o tempo pesadamente úmido, não era nada fácil tolerar as atividades, em meio à floresta densa. Para nossa sorte, a RPPN contempla diversos poços de águas claras e frescas, especialmente aquelas que caracterizam a calha do rio Morato. O chamado “aquário”, por exemplo, é uma refrescante piscina natural, no meio da trilha do salto, na qual os visitantes podem nadar, em meio a inúmeros lambaris, que lhes mordiscam a pele, sem ocasionar prejuízos, mas causando curiosa sensação.

                Acompanhe, a seguir, através de belas imagens, os aspectos naturais da RPPN do Salto Morato:

A Seguir - A RPPN do Salto Morato é magnífica coleção de florestas de baixada litorânea, congregando mosaico de vegetações densas, nas quais vegetam incontáveis espécies da Floresta Atlântica: calatéias, helicônias, costáceas e dezenas de mirtáceas, rubiáceas e melastomatáceas forram os terrenos quase planos, entrecortados por córregos de águas cristalinas e correntosas






Acima – Inúmeras espécies de palmeirinhas-aricanga (gênero Geonoma) ocupam o estrato arbustivo dessas matas, entre elas a delicada Geonoma elegans, que empresta elegante efeito ornamental ao ambiente.
Abaixo – Costus spiralis é planta que domina boa parte das áreas de sub-bosque, na RPPN do Salto Morato



Abaixo – Heliconia sp. (Heliconiaceae) Divide espaço com marantáceas e costáceas, causando efeito majestoso às áreas mais úmidas da floresta de baixada litorânea de Guaraqueçaba



Adiante – Praticamente todo espaço disponível, nas florestas de baixada litorânea, é recoberto por plantas epifíticas, dentre as quais surpreendem inúmeras ciclantáceas, que são falsas-palmeiras, como esta Asplundia glaucophylla que se agarra ao tronco delgado de uma arvoreta.



Mas, a família Bromeliaceae emerge, de longe, como aquela que mais plantas fornece para este revestimento verde da floresta de baixada litorânea. Não é a família botânica mais diversificada ali, sendo suplantada pelas orquídeas. Contudo, sua expressão na vegetação é superlativa:
O gênero Vriesea é hegemônico, na família Bromeliaceae, nessas matas. 

Acima – Vriesea aff. paraibica

Acima – Vriesea carinata

Acima – Vriesea carinata (close)

Acima – Vriesea cf. incurvata, espécie que já referimos, na postagem sobre a Serra da Graciosa, como imensamente variável e enigmática, parecendo congregar um complexo genético em fixação evolutiva.

Abaixo – Aechmea pectinata é uma bromélia vistosa, por tingir parcialmente e de forma caótica suas folhas alongadas de vermelho-encarnado, por ocasião da fase reprodutiva. É relativamente rara, no Sudeste, surgindo nas florestas de baixada litorânea da RPPN do Salto Morato


Acima – Maxillaria ochroleuca é orquídea típica dessas matinhas da baixada litorânea de Guaraqueçaba, dividindo espaço com algumas espécies de Epidendrum, lado a lado com bromeliáceas dos gêneros Billbergia e Vriesea

Abaixo – Aráceas do gênero Philodendron e Thaumatophyllum são espetacularmente abundantes, tanto nessas florestas de baixada litorânea, quanto em suas coirmãs florestas inundáveis do litoral, que tratamos na postagem anterior. Suas raízes se alongam da copa das árvores, num incansável esforço de atingir o chão, onde desfrutarão de farta quantidade de nutrientes, em meio à camada de serapilheira (matéria orgânica em decomposição). Essas cortinas de cipós são características dessa paisagem tropical


A Seguir – O rio Morato, com suas águas cristalinas, corre encaixado em terrenos aluviais, que são o embasamento fundamental da floresta de baixada litorânea. À sua volta, espalham-se as florestas mais diversificadas que o naturalista poderá examinar, entre o Sudeste e o Sul



Acima – O poço do Aquário, no rio Morato, um gratificante recanto, onde o viajante poderá desfrutar de uma refrescante pausa.

Abaixo – o Magnífico Salto Morato, queda d’água com mais de 100m de altura, representa a divisa ecológica entre a floresta de baixada litorânea e a floresta tropical pluvial de encosta, que reveste a morraria convexa, dali até as mais altas cumeadas da Serra do Mar. Somente esta bela cascata já valerá uma visita à RPPN do Salto Morato, embora ainda se tenha muito a ver, se o assunto forem florestas, como vamos conferir, a seguir


Adiante – A floresta tropical pluvial de encosta, que é a formação típica da Floresta Atlântica, ostentando elevados madeiros, em cujas galhadas, que se abrem a dezenas de metros, suporta flora epifítica própria, apesar de trocar elementos com as demais matas abaixo.

Acima – A bromélia Wittrockia superba exibe suas “unhas pintadas”, nos galhos elevados das árvores da encosta, na RPPN do Salto Morato

Acima – Cipós verdadeiros, que são lianas como o escada-de-macaco (Schnella radiata – família Fabaceae), são elementos característicos dessas matas de encosta. Estas são mais drenadas e oferecem maior sustentação edáfica para associações, tais como essa das grandes árvores longevas e suas lianas.

Acima – Sob a sombra perene da floresta tropical pluvial de encosta, surgem microfisionomias diferentes daquelas que víramos, morro abaixo, na floresta de baixada litorânea. Uma delas, que sobressai na RPPN do Salto Morato, é caracterizada por grandes populações de uma espécie de Cyperum (família Cyperaceae) bastante decorativa

Acima – A queda eventual de uma das velhas e elevadas árvores da floresta de encosta pode nos surgir como um quadro um tanto triste. Para a natureza, contudo, representa a abertura de uma valiosa “janela de luz”, onde diversas espécies acorrem, ativando o que se chama de BANCO DE SEMENTES da floresta. É uma grande oportunidade de renovação genética, promovendo evolução das plantas.


Acima e Abaixo – O chamado pau-alazão (Eugenia multicostata – família Myrtaceae) é um dos monumentos da floresta tropical pluvial de encosta da RPPN do Salto Morato, surgindo junto à trilha da Figueira e podendo ser avistado com grande facilidade.




Ops! Quase pisamos nessa mocinha, uma cobra-caninana, que tomava um sol, bem no meio da Trilha da Figueira. Mas, passado o susto, a conclusão lógica: quem levaria a pior seria a pobre serpente, que era inofensiva e teria que suportar nosso peso excessivo.

Abaixo – A magnífica figueira do rio do Engenho, um marco da RPPN do Salto Morato. Adaptando-se à erosão torrencial, que caracteriza a evolução do relevo da fralda da Serra do Mar, essa imensa árvore se moldou ao terreno e formou majestoso arco, por sobre o riacho, deixando pender sobre ele, como um jardim suspenso, diversas espécies de aráceas, cactáceas e samambaias, além de seu belo e rico revestimento de orquídeas e bromélias


Adiante - De volta da longa trilha, atravessamos uma curiosa vegetação que foi formada pelo represamento do lençol freático, devido a uma velha estrada de fazenda. O solo encharcado fez minguar as árvores, deixando espaço para um adensamento de samamabaiaçus-xaxim (Dicksonia sellowiana) e arvoretas das famílias Myrtaceae e Melastomataceae, entre outras espécies adaptadas. O resultado era um diversificado jardim de orquídeas e bromélias, que tiravam proveito da forte umidade e da farta iluminação solar:


Acima – Uma Begonia sp pendendo dos galhos de uma dessas arvoretas, onde vegetava de forma epífita

Acima – A delicada orquídea Rodriguezia venusta cresce em tênues ramos, entrelaçada a liquens e briófitas. São espécies efêmeras, contrastando com sua admirável beleza


Acima – Uma espécie de Vriesea (Bromeliaceae) afim de V. gradata abunda nessa matinha baixa e inundada da RPPN do Salto Morato
Abaixo - A bromélia Aechmea nudicaulis é onipresente, em quase toda a Floresta Atlântica. Não faltaria aqui, no Salto Morato





O imenso teiú atravessava a estradinha da RPPN do Salto Morato, ao final da tarde, quando retornávamos da longa trilha pelas matas

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

GUARAQUEÇABA – AS FLORESTAS DE BAIXADA LITORÂNEA

                Texto revisado em janeiro de 2025

                Ainda no dia 08 de dezembro de 2015, após descermos a fantástica Serra da Graciosa, no Paraná (ver postagem anterior), tomamos a relativamente longa estrada que liga Morretes a Guaraqueçaba, no fundo do conjunto de baías e estuários do litoral daquele estado. Bem, digo “relativamente longa”, pois o trecho conta com pouco mais de 100km, coisa que poderia ser vencida em no máximo uma hora e meia, se percorrêssemos rodovias pavimentadas ou, ao menos, estradinhas de terra bem conservadas. O trecho Morretes – Guaraqueçaba nos tomou algo em torno de QUATRO HORAS!

                Expliquemos: realmente, o estado de conservação da rodovia é péssimo, repleto de buracos, pedras soltas e incrustadas perigosamente no barro, além de atravessar algumas serranias menores, mas difíceis de passar. Mas, a despeito disso tudo, havia outra considerável razão, que poderia tomar do naturalista, ao menos, uns dois quintos deste tempo: FLORESTAS! Muitas florestas litorâneas, algumas das mais bem conservadas que eu já avistara, em todas as minhas andanças pelo país.

                Durante muito tempo, viajamos sob um túnel escuro de matas densas, tomadas de epífitas e cipós, nos quais as surpresas botânicas se alternavam e as fitofisionomias nos deixavam tontos, de tão variadas.
                
                Não havia metro desta linda estrada que não confirmasse os postulados de nosso livro, recém-lançado pela NAU Editora (vendas através do site www.naueditora.com.br) – FITOGEOGRAFIA DO BRASIL, UMA ATUALIZAÇÃO DE BASES E CONCEITOS – no que se refere às florestas tropicais atlânticas de baixadas litorâneas. Ainda teríamos tempo de, nos dias que se seguiram, investigar melhor essas matas, especialmente as duas tipologias correlacionadas, tratadas exaustivamente no livro: florestas de baixada litorânea e florestas inundáveis do litoral, que se intergradam continuamente, dependendo dos solos que as suportam.

Vejam um pouco daquilo que nos brindou Guaraqueçaba, no litoral do Paraná:




Acima - Guaraqueçaba se esconde ao fundo do conjunto de baías ligadas a Paranaguá, no Paraná, aos pés da altaneira Serra do Mar, que lhe emoldura a paisagem, de qualquer ponto em que ela seja admirada.
Abaixo - Mas, para se chegar a esta pequena cidade, uma das mais antigas do Paraná, o viajante terá que gastar algumas BOAS, muito boas horas, numa estrada mal conservada, mas repleta de florestas primitivas



Como entrelinhas de uma longa história de colonização, ainda podem ser avistados fragmentos de florestas inundáveis do litoral, que ainda sustentam variada flora epifítica, em meio a pastagens de búfalos, que se adaptaram muito bem ao solo lamacento - Acima.
Mas, a boa surpresa é que essa história natural complexa, que une longas transgressões marinhas e gigantescos processos erosivos Quaternários, pode ser esplendidamente investigada, um grande parte do litoral de Guaraqueçaba, como se perceberá nas imagens a seguir



Uma série de troncos eretos, completamente envolvidos por lianas e plantas trepadeiras, além de farta quantidade de bromélias e orquídeas, caracteriza essas florestas que vegetam sobre verdadeiros arquipélagos de lama e sedimentos, fora da zona de influência direta das marés. Veja a seguir como alguns canais delgados de águas cristalinas drenam esses "pântanos" florestados.



Acima - Em determinados locais, podem ser notadas similaridades com vegetações amazônicas, como a campinarana, sendo possível ver a água límpida, mas com a típica coloração amarronzada, em função dos ácidos húmicos que percolam da floresta densa.
Um dos aspectos fascinantes das florestas inundáveis do litoral é sua abundância de orquídeas e bromélias. Esta espécie de orquídea - Rodriguezia cf. venusta - abundava em flores, por ocasião de nossas passagem por Guaraqueçaba




A Seguir - Logo acima da topossequência de vegetações de florestas tropicais pluviais de encosta de Guaraqueçaba, pode ser encontrada a floresta de baixada litorânea, que visitamos detalhadamente, na Reserva Particular do Patrimônio Natural do Salto Morato. Na imagem abaixo, um trecho desta floresta notável, onde se observa um exemplar da bromélia Aechmea pectinata, com as bainhas de suas folhas já tingidas de vermelho, o que lhe caracteriza o início da fase reprodutiva.



Mas, isso ficará reservado para nossa próxima postagem. 

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

SERRA DA GRACIOSA – PARANÁ: TRINTA E TRÊS ANOS DEPOIS

                Texto revisado em janeiro de 2025

                Cerca de duzentos anos após Saint-Hilaire descer a Serra da Graciosa, no Paraná, ganhando o rumo do litoral, para onde seguiu viagem, vindo do interior do estado, lá estávamos nós, praticamente no mesmo rumo do naturalista. Em meu caso particular, algo próximo de trinta e três anos me separava de minha última visita, empreendida mais para buscar o surf, nas praias da região, do que para me debruçar sobre suas florestas e plantas. Assim, no dia 08 de dezembro de 2015, procedentes da capital Curitiba, aonde chegáramos, um dia antes, vindos de Paraty, que nos servira de base para explorar as matas de Picinguaba (ver postagem anterior), gastamos boa parte do dia observando a deslumbrante coleção de florestas, que se despenca desde o Planalto, até o litoral do Paraná, pela Serra da Graciosa.

                A célebre Estrada da Graciosa perfaz mais ou menos o mesmo caminho utilizado pelo naturalista francês, que viajou grande parte de nosso país, no início do Século XIX, ajudando a desvendar muito de sua botânica e de sua fitogeografia. Derivando da rodovia BR116, coisa de uns trinta quilômetros de Curitiba, ela serpeia “graciosamente” pelas encostas íngremes da Serra do Mar, até chegar aos terrenos litorâneos do estado, perto de Morretes. Nos tempos em que a desci, pela última vez, já não era a trilha dura enfrentada por Saint-Hilaire. Mas, ainda contava com belo pavimento de paralelepípedos, hoje quase totalmente sepultados pelo mais frio asfalto.

                De forma diferente de trinta e poucos anos atrás, quando percorríamos muito tempo sozinhos, no meio da estradinha bucólica, sem ver passar qualquer outro carro, hoje trafega notável quantidade de veículos apressados, que carregam turistas sequiosos por chegar ao mar, sem que se deem ao trabalho de se deter um pouco e admirar as esplêndidas matas que guarnecem, estas sim, de forma inalterada, o cenário ao redor. Fomos, então, na medida do possível, parando em cada recanto visitado por mim, em 1982, para conferir, já com olhos mais maduros, os aspectos da biodiversidade das florestas.

                A Estrada da Graciosa representa uma topossequência exemplar de climas, formas de relevo e, claro, vegetações e floras, desde os 850m, até próximo do nível do mar. Ao longo de quase 25km, o visitante poderá observar, tal como num corte teórico dos mais exemplares, desde a floresta subtropical de altitude, ainda contando com algumas araucárias (Araucaria angustifolia); até as magníficas florestas de baixada litorânea; passando pelas majestosas florestas tropicais pluviais de encosta atlântica. O leitor que, ao ler meu livro, recentemente editado pela NAU Editora (2015) – Fitogeografia do Brasil ; Uma Atualização de Bases e Conceitos vendas pelo site www.naueditora.com.br – decidir conferir os capítulo sobre a Floresta Atlântica, confrontando-o aos antecedentes, dedicados à Geomorfologia e Clima, principalmente, poderá ali encontrar um perfeito transecto demonstrativo de todas as vegetações associadas a ela. Se decidir então seguir até Guaraqueçaba, para onde nossa expedição se dirigiu, após a Serra da Graciosa, completará sua contemplação das sequências topográficas, ao visitar as florestas alagáveis e manguezais (ver próxima postagem).

                Observem, nas fotografias a seguir, alguns desses aspectos fascinantes da Serra da Graciosa e de sua flora:


Acima - Na floresta de altitude, com flora fundamentalmente subtropical, medram incontáveis plantas epífitas, que exibem suas vistosas inflorescências, no auge da primavera e adentrando o verão. Embora se pareçam com as florestas tropicais, que lhes vão aos pés da magnífica Serra do Mar, representam flora própria, mas que pode compartilhar elementos com aquelas.

A Seguir - Aspectos da floresta de altitude, que chega até a beira da crista da serra, para se desfazer gradualmente, por dentro da floresta tropical pluvial de encosta



Acima - Exibindo elementos que podem ser compartilhados, no Paraná, com as florestas de encosta e baixada, como os samambaiaçus-xaxim (Dycksonia sellowiana) e as bromélias Vriesea platynema, V. incurvata e algumas outras espécies, a floresta de altitude se beneficia da umidade constante, depositada pelas nuvens orográficas, que se encostam docemente na montanha, de forma quase ininterrupta.


Acima - A orquídea Gomesa praetexta (=Oncidium enderianum) abunda em flores, nesta época do ano, em meio às bromélias da floresta de altitude.
Abaixo - Os samambaiaçus-xaxim (Dycksonia sellowiana) são especialmente numerosos, nas áreas de grande altitude da Serra da Graciosa, formando densas populações, em cujos caules fibrosos se instalam outras pteridófitas delicadas, além de orquídeas e bromélias.



A Seguir - Na medida com que se avança ao litoral, perdendo altitude e ganhando calor, a floresta se modifica bruscamente, dando lugar a árvores mais elevadas e imponentes, que suportam densos emaranhados de epífitas características, às quais se unem lianas e aráceas variadas. As chuvas são aí mais fortes e a maior parte dos rios do litoral nasce em meio a essas preciosas florestas



Os nevoeiros são também constantes, ajudando a manter a elevada umidade trazida pelas chuvas. É bastante agradável contemplar a floresta imersa na bruma, que lhe confere aspecto misterioso




Acima - Vriesea platynema é uma bromélia compartilhada com as regiões de altitude. Porém, somente atingirá seu apogeu, se vegetar sob alta umidade, seja lá em cima da serra, seja cá mais próximo à Baía de Paranaguá
Abaixo - O curioso complexo em torno de Vriesea incurvata mostra toda sua pujança a partir da média encosta, ganhando força nas matas densas do litoral. Poucos negam o caráter enigmático que ainda lhe cerca a taxonomia




Acima - Riqueza suprema da Serra do Mar, em toda sua extensão: águas cristalinas e perenes, que nascem nas cristas montanhosas, nas serras da chuva, para chegarem ao mar, no Paraná, nos fundos da Baía de Paranaguá

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

PARQUE ESTADUAL DA SERRA DO MAR – NÚCLEO PICINGUABA – SÃO PAULO

                Texto revisado em janeiro de 2025

                No dia 06 de dezembro de 2015, realizamos uma excursão pelas florestas do Litoral Norte de São Paulo, mais precisamente, no Parque Estadual da Serra do Mar – Núcleo Picinguaba – próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro. É uma das regiões mais chuvosas de todo o litoral brasileiro. Confrontando-se isso com o relevo crítico da Serra do Mar, neste trecho, e o clima quente dominante, não se poderia esperar algo diferente da densidade das matas e da diversidade de espécies que ainda guarnecem este setor.

                A situação de conservação e manutenção desta unidade de conservação estava longe de ser ideal e nada mais encontramos, nesta data, que patrimônio abandonado e trilhas quase desaparecidas. Estivera ali, cerca de vinte anos atrás, para percorrer exatamente a mesma trilha chamada Trilha do Corisco, sendo a lembrança da exuberância daquelas florestas e a boa condição de caminhada de então os maiores estímulos para esta nova visita.

                A Trilha do Corisco servira, em séculos passados, para a travessia dessas montanhas, que dividem a região de Ubatuba, no litoral paulista, da Baía de Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Os indígenas, seus mais habituais usuários, vindos de Ubatuba, se obrigavam a cruzar esta dura trilha, por não conseguirem atravessar a temida Ponta da Juatinga, com suas frágeis canoas. Hoje, ela serve apenas ao ecoturismo, estando infelizmente relegada ao quase esquecimento.


Vamos às imagens, que podem sempre dizer mais que as linhas do texto:


Acima - Poucos lugares da costa do Sudeste podem propiciar este contato quase direto entre a Floresta Atlântica e o mar. Picinguaba, no litoral norte de São Paulo, é um deles. A rodovia BR101 corta irreversivelmente a continuidade entre os dois ecossistemas, mas o Parque Estadual da Serra do Mar impede o avanço da urbanização caótica, que já tomou conta de quase todo o restante da linha de praias

Abaixo - Na linha de praias, a floresta ainda se instala sobre o solo livre da influência das marés, propiciando paisagem de lindo contraste



Acima - As vistosas e duras bromélias do gênero Neoregelia, adaptadas aos ambientes de luz extrema, ocupam desde o solo da restinga, até o topo das grandes árvores emergentes da floresta densa de Picinguaba, enquanto outras plantas se vão acomodando, sob o dossel sombreado da mata. Estas plantas do complexo em torno de Neoregelia johannis são de taxonomia complicada e controversa. Neoregelia cf. correia-araujoi é a planta da imagem


Acima - As saíras-das-sete-cores, entre outras saíras, são especialmente abundantes, nestas florestas mais abertas da linha costeira de Picinguaba

A Seguir - Aspectos do interior das florestas densas de baixada litorânea do Parque Estadual da Serra do Mar:




Raízes tabulares, com sapopemas, ajudam a fixar melhor as grandes árvores, nos terrenos frágeis da floresta de baixada litorânea da Serra do Mar, enquanto abundam bromélias e orquídeas, juntando-se a imensa diversidade de aráceas trepadeiras, que praticamente recobrem galhos e troncos. São numerosos os palmiteiros (Euterpe edulis), além de diversas espécies decorativas de palmeirinhas do gênero Geonoma, como a G. elegans, da imagem a seguir.


Abaixo - A Commelinaceae Dichorisandra thyrsiflora dá um toque de cor, na mata escura e monocromática



Acima - O rio Picinguaba é acompanhado quase todo o tempo, ao longo da Trilha do Corisco, emprestando seu rumor contínuo, como música de fundo à excursão


Acima - Imenso cogumelo-orelha-de-macaco, sobre um tronco caído na mata
Abaixo - A bromélia Canistropsis seidelii é elemento de extrema importância ecológica, na floresta densa e úmida de Picinguaba




quarta-feira, 18 de novembro de 2015

RPPN GRAZIELA MACIEL BARROSO – NOVEMBRO DE 2015

                Texto revisado em janeiro de 2025

                A Reserva do Patrimônio Natural Graziela Maciel Barroso, ou simplesmente RPPN Graziela Maciel Barroso, é uma unidade de conservação particular, pertencente ao Condomínio Quinta do Lago, em Petrópolis, estado do Rio de Janeiro. Conheci essas montanhas entre 1998 e 1999, quando fui convidado a ajudar na demarcação dessa reserva, assim como para coordenar seu Plano de Manejo, no final daquela década que ficaria marcada como uma era ecológica, quando o apelo conservacionista se espalhou e sensibilizou a população e até mesmo empresários.

                A RPPN Graziela Maciel Barroso protege extensa área de montanhas, na região conhecida como Rio da Cidade, próximo à Fazenda Inglesa, bairros que ainda congregam boa quantidade de florestas. Ao menos duas espécies criticamente ameaçadas encontram abrigo, nesta Reserva: a bela amarilidácea Worsleya procera, até pouco tempo conhecida como Worsleya rayneri; e a minúscula bromeliácea litofítica Tillandsia grazielae, esta última com ocorrência praticamente restrita à RPPN.

                É interessante notar que o nome da Reserva foi uma homenagem que fizemos à célebre Dra. Graziela Maciel Barroso, botânica que transformou a história do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, trabalhando arduamente, até o fim de sua vida, na Década de 2000. Os pesquisadores Sucre e Braga, que descreveram a pequena bromélia dos paredões de pedra da RPPN, resolveram apor-lhe como epíteto o nome da Dra. Graziela. Anos depois, por ter iniciado minha vida botânica sob os auspícios da Dra. Graziela e tendo a raríssima plantinha como uma das espécies mais importantes da região, sugeri o nome da reserva, que foi prontamente aceito, ajudando a eternizar essa grande pesquisadora de nossa flora.

                Para quem desejar conhecer mais sobre a RPPN Graziela Maciel Barroso, bastará ingressar no Instagram e buscar pelo #rppngrazielamacielbarroso ou mesmo minha página pelo #jardimfitogeografico onde encontrará inúmeras imagens da reserva e de sua natureza.

                No dia 18 de novembro de 2015, resolvi fazer uma vistoria nas florestas de altitude da RPPN Graziela Maciel Barroso, tirando proveito de uma manhã fresca e úmida de primavera. Embora ela tenha sofrido muito, em tempos recentes, com a propagação de incêndios florestais, provenientes de áreas limítrofes, as florestas de altitude da Reserva se encontravam muito bem conservadas.

                A seguir, mostro alguns aspectos interessantes dessa visita, através de imagens obtidas no local:


Sobre rochas imersas na floresta densa e escura, inúmeras bromélias Neoregelia carolinae se encontravam em flores, exibindo suas vistosas rosetas centrais de folhas, tingidas de vermelho purpúreo, que servem para atrair polinizadores às suas diminutas flores lilacinas, que emergem do tanque central de água. Note-se o caráter alternativo de vegetação dessas persistentes plantinhas, que tanto podem crescer sobre troncos e galhos de árvores, quanto por sobre as rochas que afloram, ou mesmo diretamente no solo, em meio ao material em decomposição.




As matinhas de altitude recebem diretamente as nuvens, que colidem com as cumeadas da serra. São as famosas “florestas nebulares”, onde as gotículas de água dispersas nessas nuvens propiciam ambiente saturado de umidade. Bromélias são numerosas e variadas: Vriesea heterostachys é de longe a mais comum, partilhando espaço com Vriesea jonghei, Vriesea bituminosa, Billbergia sanderiana, Billbergia pyramidalis e diversas Tillandsia spp.


Essas flores não são hortênsias não! São solanáceas: Brunfelsia hydrangeiformis, do mesmo gênero dos conhecidos manacás de nossos jardins, que, aliás, também são nativos daqui.


Nos links a seguir, você poderá ver no Youtube alguns pequenos vídeos feitos nesta excursão: