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quinta-feira, 1 de março de 2018

RELATOS DE UMA PASSAGEM PELAS FLORESTAS DE ALTITUDE DE ITATIAIA – RIO DE JANEIRO – SETEMBRO DE 2010


                Postagem revisada em janeiro de 2025

                Antecedendo a publicação de recente expedição à Serra da Mantiqueira – Planalto do Itatiaia e região de Itamonte (Serra do Papagaio) –, em breve,  resolvi publicar a história de minha passagem pela região, em setembro de 2010, quando encontrei preciosos fragmentos de florestas de araucária, entre Visconde de Mauá, no RJ, e Alagoa, em MG. O texto e as imagens a seguir, devidamente revisados, foram extraídos de publicação realizada num portal da internet ( PLURIDOC, em outubro de 2010). Tal portal foi extinto, sendo atualmente a denominação de um outro site, que nada tem a ver com aquele (observação de janeiro de 2025). Essa expedição foi fundamental para as interpretações de meu livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL, UMA ATUALIZAÇÃO DE BASES E CONCEITOS (NAU Editora, 2015 - vendas através do site www.naueditora.com.br).


Maxillaria pumila - orquídea das matas de araucária de Alagoa, MG

Relatos de Uma Passagem Pelas Florestas de Altitude de Itatiaia – Rio de Janeiro
Outubro de 2010

                Em 23 de setembro de 2010, na entrada da primavera de um ano extremadamente seco, passei por Visconde de Mauá, na Serra da Mantiqueira, vindo de Penedo, no eixo da Rodovia Presidente Dutra (Rio – São Paulo). Partira nesse mesmo dia de Petrópolis e meu destino final, nesta viagem, como em tantas outras vezes, seria o Mato Grosso. A estiagem deste ano se estendera por demais e o inteiro país sofrera com as queimadas e o ar seco, que causara grandes transtornos à população. Minha subida, pela estradinha íngreme, que liga a Rodovia Dutra a Visconde de Mauá foi realizada em meio a intenso calor, condição bastante incomum, nesta região. A estrada se encontrava em plena obra de asfaltamento, trabalho decididamente dificultado pela forte inclinação das encostas e agravado pelo pó, que encobria trabalhadores e usuários, devido à seca.

(observação: Em Primavera do Leste, no Estado do Mato Grosso, destino final desta viagem, as últimas chuvas haviam caído no dia 05 de abril deste ano e, quando lá cheguei, no dia 27 de setembro, ainda persistia a forte estiagem, encontrando-se a atmosfera tomada pela fumaça dos incêndios, que se alastravam descontrolados, por todos os lados. A primeira chuva somente viria a cair por volta do dia 01 de outubro, completando quase seis meses de completa estiagem.)

                Ainda existem consideráveis reservas de florestas de altitude ao longo da estrada, que se encontravam razoavelmente conservadas, na ocasião desta viagem. Mostram características nítidas de florestas estacionais, a despeito de grande quantidade de epífitas que carregam, nos seus galhos. Destacam-se as bromélias, especialmente as Vriesea bituminosa e plantas do grupo, assim como Aechmea distichantha, que apresenta variedade bastante característica, parecendo se tratar de A. distichantha var. distichantha. Os Asplenium sp. também marcam a paisagem epífita, sendo numerosos e apresentando folhas de porte considerável.

                Outro elemento marcante das florestas altitudinais, na encosta voltada ao rio Paraíba, são os palmiteiros (Euterpe edulis – Família Arecaceae), que surgem em notáveis populações, parecendo terem sido semeados artificialmente. A floresta é muito densa, semelhante àquela que se vê na mesma seção de encostas da Serra da Mantiqueira, mais adiante, na subida para Campos do Jordão, em São Paulo. Aqui, porém, parecem mais conservadas do que lá.

                A virada da serra, mais perto de Mauá, representa notável divisor vegetacional, acompanhando solos mais profundos e encostas mais suavemente inclinadas, formando um reverso serrano. Nota-se a presença das araucárias (Araucaria angustifolia – Família Araucariaceae), sugerindo já terem ocorrido, de forma natural, nos vales e altas encostas interioranas do vale do rio Preto. Hoje, porém, parecem apenas se manter na paisagem à custa da vontade humana. Também aqui, a floresta estacional de altitude em muito se assemelha àquela dos vales internos de Campos de Jordão. Porém, em Visconde de Mauá, ao contrário de Campos de Jordão, os vales internos se mostram bastante alterados e as matas se concentram predominantemente na calha dos rios. De modo diferente daquelas matas da Mantiqueira Paulista, não se observavam os pinheirinhos (Podocarpus lambertii – Família Podocarpaceae), que abundam em todas as florestas que circundam Campos do Jordão.

(Observação: Visconde de Mauá, no Estado do Rio de Janeiro, está situada na alta bacia do rio Preto, que pertence, por sua vez, à bacia do rio Paraíba do Sul. Parecem existir profundas diferenças ecológicas e, por conseguinte, vegetacionais, entre a bacia do Paraíba do Sul e a do rio Grande, que possui nascentes pouco mais ao norte, nos reversos serranos da Mantiqueira, para onde seguia esta viagem, chegando à alta bacia do rio Aiuroca. Seguramente, a extensão pretérita das araucárias possuía limites condicionados por esta barreira montanhosa.)

                Paradas realizadas, ao longo do vale do rio Preto, revelaram muitas bromélias, entre aquelas já referidas e algumas outras Vriesea, que pareciam ser do grupo de Vriesea ensiformis, assim como de Vriesea interrogatoria, além de uma infinidade de Tillandsia spp.: Tillandsia geminiflora, T. stricta, T. tenuifolia e, aparentemente, muitas outras espécies. Orquídeas como Epidendrum densiflorum e Bifrenaria cf. inodora foram avistadas, sempre em meio aos Asplenium sp. e espessas camadas de briófitas, a cobrir os troncos e galhos das árvores – Tudo isso muito ressecado, devido ao avançado da estiagem e ao ar seco. Os xaxins também abundam, nas margens dos rios.

                No dia seguinte, partindo da localidade de Maringá, onde me hospedei, segui um caminho pouco frequentado, rumando para a outra vertente da Serra da Mantiqueira, voltada para o Sul de Minas Gerais. Pretendia cruzar a Serra o mais próximo possível de sua área nuclear, que está situada no altiplano interno das Agulhas Negras. Meu objetivo era a região de Aiuroca, próximo à qual já passara, diversas vezes, na rodovia que liga Juiz de Fora a Caxambu. Passando por diminutas localidades, tais como Mirantão e Santo Antônio, que guardam aspecto bucólico, muito isoladas que são, encontrei uma rudimentar estradinha, partindo dos arrabaldes da segunda cidadezinha citada. Tratava-se de via extremamente precária, cortando encostas profundamente inclinadas, pela qual fui obrigado a trafegar com extremo cuidado, em marcha totalmente reduzida, mesmo seguindo num veículo 4 X 4, apropriado àquelas dificuldades.

                Durante toda a manhã, período que durou minha travessia serrana, nenhum veículo cruzou por mim, em qualquer sentido, tampouco tendo eu avistado, naqueles altos montanhosos, qualquer pessoa, a pé ou a cavalo. Para minha grata surpresa, encontrei os mais conservados fragmentos de florestas de araucária que já pudera avistar em solo mineiro. Isoladas em vales escondidos e circundando serenos córregos, de águas absolutamente cristalinas, estendiam-se consideráveis florestas, perfeitas réplicas daquelas a que me habituara a percorrer, na Serra Gaúcha, mais de mil e quinhentos quilômetros ao sul. Araucárias altaneiras, algumas revestidas de Usnea e abrigando grande quantidade de bromélias, elevavam-se em grupos numerosos, em meio à floresta estacional de altitude, que mostrava aparente similaridade botânica com suas correlacionáveis meridionais.

                O aspecto subtropical parecia corresponder a similaridades florísticas, uma vez que avistava grande quantidade de mirtáceas micrófilas, assim como de anacardiáceas e lauráceas. Tudo isso demandaria, seguramente, exames cuidadosos da verdadeira composição florística dessas matas de araucária que, de forma diversa daquelas ocorrências meramente sugestivas, do vale do rio Preto, bem abaixo, na região de Visconde de Mauá, mostravam inquestionável autenticidade. Porém, mesmo sem contar com os meios e o tempo de proceder a investigações mais detalhadas, encontrei indicadores inequívocos da ligação florística entre essas florestas mistas de araucária e suas versões meridionais. Entre esses indicadores, havia diversas bromélias e orquídeas relacionadas: Vriesea friburgensis não se mostrava muito numerosa, mas estava presente, com sua forma vinácea; Tillandsia tenuifolia e T. cf. aeranthos vegetavam com o mesmo vigor de suas parentes gaúchas e paranaenses; Pleurothallis sonderana abundava sobre os galhos retorcidos e revestidos de musgos, na margem dos riachos murmurantes.

                O pinheirinho Podocarpus lambertii estava ali presente, ocupando seu lugar característico, no estrato arbóreo médio e sub-bosque, dos locais mais densos e conservados. Revestiam-se de bromélias, tais como Aechmea distichantha, Nidularium marigoi e Vriesea cf. sceptrum, que ocupava o lugar de Vriesea reitzii, do RS e PR. A delicada Billbergia distachia (Bromeliaceae)  abundava, sendo também comum às matas do rio Preto, mais abaixo. A orquídea Maxillaria pumila  em densas populações, juntava-se a espécies de Pleurothallis, recobrindo praticamente todas as superfícies disponíveis de troncos grossos e retorcidos da floresta densa. Também se viam aráceas diversas e bastante musgo, encontrando-se todo esse conjunto severamente afetado pela seca prolongada.

                Um aspecto curioso cercava a ocorrência também característica das samambaias-xaxim (Dicksonia sellowiana – Família Dicksoniaceae), nas margens dos córregos cristalinos, relacionando-se à já referida severidade da seca de 2010. Ocorria que a grande maioria dos exemplares da samambaia, mesmo tendo seus pés sobre as margens perenemente úmidas dos regatos, junto a numerosos Blechnum sp. (Família Blechnaceae), mostrava suas frondes completamente queimadas, chegando mesmo a sugerir sua morte iminente. A despeito da evolução eventualmente maligna deste quadro, que eu talvez não venha a ter oportunidade de constatar, uma coisa parecia bastante evidente: O frio, que andara por ali, recentemente, seguido da prolongada estiagem, parecia ter representado fato climático inegavelmente excepcional, neste ano. Assim, mesmo tendo garantido seu suprimento de água no solo, os samambaiuçús não haviam resistido ao calor, seguindo-se ao frio intenso, e à secura do ar que sobreviera, com altos índices de radiação ultra-violeta, aos quais não estavam adaptadas.

                No interior da floresta, com microclima bem mais protegido, os exemplares de Dicksonia sellowiana observados, mesmo vegetando sobre solo seco, longe dos rios, não se mostravam igualmente torrados, apesar de se mostrarem com aspecto triste. Sobre o solo dessas florestas, surgiam densas populações de bromélias Nidularium marigoi, juntamente com exemplares de Anthurium sp. (Família Araceae) e numerosos arbustos da família Rubiaceae. Pouco adiante, avançando pela exígua estradinha, comecei a perceber outro aspecto de similaridade com as paisagens típicas da Araucarilândia: eram os campos de altitude, aqui bastante alterados e quase confundidos com pastagens abertas artificialmente. Encontravam-se marcados por longa história de exploração pecuária, mas não haviam perdido seus elementos característicos, tais como as diminutas melastomatáceas campestres, que podiam se avistadas, pontuando o domínio irreversível das pastagens.

                O corte recente da estrada, realizado por máquinas niveladoras, exibia também o perfil típico dos solos campestres, com a camada humosa bem definida, de coloração negra, no horizonte mais superficial. Sabe-se que a floresta de araucária costuma ocorrer em mosaicos complexos, juntamente com os campos de altitude, desde o Sudeste, até a Região Sul, onde encontram sua expressão mais notável, nos Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul. Os pinheirais avançam sobre os campos, realizando a tarefa pioneira de substituí-los ao longo do tempo pelas florestas densas. Ali, no altiplano sul-mineiro, eu observava os indícios, já bastante alterados pelo homem, deste processo fitogeográfico.

                Cruzei ainda nova linha divisória de relevo, que confina esse domínio tropical de altitude, perdido no coração da Mantiqueira, passando a descer, de modo bastante abrupto, na direção da localidade de Alagoa, no vale do rio Aiuroca. A partir desta vertente, ela também mostrando características de reverso interiorano de serra, com solos mais profundos e evoluídos, a paisagem botânica passou a se mostrar definitivamente marcada por elementos da floresta estacional sul-mineira. Praticamente desapareceram de vista as araucárias, que somente ocorriam de forma artificial, junto a cercas e áreas rurais. As epífitas se reduziam a poucas populações de bromélias, no fundo das grotas mais abrigadas, decrescendo notavelmente sua diversidade. Deixei definitivamente o domínio das florestas tropicais de altitude, com seus pinheirais e suas epífitas, passando por Alagoa e Aiuroca e ganhando a Rodovia BR267, que liga Juiz de Fora a Caxambu, pela qual já passara diversas vezes, seguindo minha longa viagem ao Centro-Oeste.  




Aspecto da floresta mista de araucárias, entre Itatiaia e Alagoa, na Serra da Mantiqueira

Bromélias Vriesea sceptrum são características das florestas de altitude da Serra da Mantiqueira, entre Minas Gerais e Rio de Janeiro

Samambaiuçus da espécie Dicksonia sellowiana – de pé, na margem esquerda do riacho - se mostravam severamente afetadas pela seca de 2010, que se sucedera ao intenso frio do inverno

sábado, 11 de novembro de 2017

VISITA AO MÉDIO VALE DO RIO DAS MORTES – MATO GROSSO – OUTUBRO DE 2017


Acima – Cachoeira da Fumaça, no médio rio das Mortes


Ainda contando com a indispensável companhia de meu amigo Sérgio Basso, insubstituível guia pelas paisagens do Sudeste do Mato Grosso, pude conhecer o médio vale do rio das Mortes, a norte da rodovia BR070, entre os municípios de Primavera do Leste, General Carneiro e Novo São Joaquim.

O rio das Mortes, que atravessa a Reserva Natural da Fazenda Ipanema (veja postagens - http://expedicaofitogeografica2012.blogspot.com.br/2017/03/investigando-floresta-galeria-da.html ), nasce na Serra de São Vicente, a oeste, atravessando extensa superfície de chapadas planálticas, na região visitada, e infletindo progressivamente a nordeste, para se juntar ao Araguaia, na Ilha do Bananal.

Embora drenando bacia diversa daquelas que escavaram o célebre Planalto dos Alcantilados, ao sul (alto rio das Garças – correndo ao Araguaia; e rio Vermelho – correndo ao Pantanal), esse setor do rio das Mortes congrega paisagens ainda similares às daquele, com imensos morros-testemunha, à forma de mesas ou tepuis, alternando-se com planalto colinoso, cujas cimeiras são os famosos chapadões planos, hoje cobertos por lavouras de grãos.

 Nossos principais interesses, nesta expedição: examinar diversos morros-testemunho, com sua flora residual; e conhecer as admiráveis cachoeiras do rio das Mortes, ao redor das quais se concentram afloramentos rochosos, com flora característica rupícola e saxícola.

Veja, adiante, alguns aspectos fitogeográficos e botânicos relevantes, que acompanham as imagens desta expedição:


A seguir – No caminho para a depressão do vale do rio das Mortes, a pecuária já transformou bastante a paisagem botânica, embora alguns elementos ainda sobressaiam, como a bromeliácea Bromelia balansae, espécie bastante característica da região






Adiante – Pequenos morros-testemunho são marcos típicos da paisagem arrasada do vale do rio das Mortes. Um dos objetivos da viagem era investigar-lhes a vegetação e a ecologia







Acima – A esperança de encontrar flora endêmica de afloramentos, com elementos como bromélias, orquídeas, aráceas e cactáceas se esvaiu, quando galgamos alguns desses morrotes, que não passavam de refúgios de cerrados rupestres, formados sobre solos clásticos, compostos de miríades de pedras trituradas pela erosão das rochas restantes de seus cimos quase estéreis
Abaixo – Esses morrotes isolados, em meio a vastas áreas de cerrados, nada mais representam que testemunhas de suas antigas superfícies de cimeira, sobre as quais, em passado de Terciário a Quaternário inicial, dominavam vegetações arbóreas relacionadas ao Cerrado. A flora herbácea que procurávamos, se um dia existiu, foi lentamente extinta, em função de processos biogeográficos característicos de ilhas (Biogeografia de Ilhas)




Adiante – O apogeu da expedição se deu mesmo na margem do rio das Mortes, próximo aos saltos da Cachoeira da Fumaça, pertencente ao município de Novo São Joaquim, onde encontramos ecossistemas de imenso interesse botânico – afloramentos rochosos ribeirinhos. Entre grandes lajeiros de arenito expostos ao sol inclemente, vegeta flora notável por seus elementos herbáceos saxícolas: bromeliáceas, cactáceas, velosiáceas principalmente.

Veja o vídeo que mostra um dos principais saltos do rio das Mortes:


Tudo isso abrigado entre arvoretas e arbustos adaptados, alguns deles provavelmente endêmicos da região





Acima – Uma espécie de bromélia, que acreditamos se tratar de Bromelia sylvicola, representava elemento notável, ocupando nicho bastante específico e produzindo inflorescência bastante singulares.



Acima – Algumas das flores de Bromelia cf. sylvicola apresentavam tonalidade quase alva, emergindo entre brácteas escapais recobertas de lanugem também esbranquiçada. As plantas, de modo geral, diferem bastante de Bromelia balansae, espécie dominante nos cerrados do sul do Mato Grosso

Adiante – Ilhas de vegetação arborescente formam como que abrigos naturais à flora saxícola do rio das Mortes. São cajuzinhos (Anacardium humile – Anacardiaceae), cambarás (Vochysia spp. – Vochysiaceae), pequizeiros (Caryocar brasiliense – Caryocaraceae), muricis (Byrsonima affinis – Malpighiaceae) e rabos-de-arara (Norantea guianensis – Marcgraviaceae), além de inúmeras mirtáceas e fabáceas adaptadas ao ambiente extremo





Acima – A vegetação típica se debruça sobre o canal muito encaixado do rio das Mortes, neste trecho rochoso dos saltos

A seguir – Um dos mais marcantes achados foram numerosas populações de outra espécie de bromeliácea, que se espalham por sobre os afloramentos de arenito, chegando a formar largas touceiras. Pertenciam ao grupo de plantas que temos buscado investigar, ao longo do Mato Grosso – Dyckia spp. – que representa importante indicador de migrações e adaptações botânicas ocorridas nos últimos milhões de anos, nesta parte do Brasil, provavelmente acompanhando antigos corredores áridos e frios





Acima – Essas micropaisagens de Dyckia sp. e Bromelia cf. sylvicola são também marcadas por Vellozia sp., Barbacenia sp. (Velloziaceae) e decorativas cactáceas epifíticas (Hylocereus setaceus), que emprestam ao local uma fisionomia extremamente ornamental - Abaixo


Acima – Orlando Graeff junto a uma notável população de Vellozia sp.



Acima – Fruto pedunculado do cajuí, ou cajuzinho-do-cerrado (Anacardium humile – Anacardiaceae), arvoreta que se mostra muito expressiva na flora dos afloramentos do rio das Mortes, em Novo São Joaquim


Acima – Embora não formasse populações tão notáveis, quanto as demais bromeliáceas, Ananas ananassoides estava presente na vegetação saxícola, como a lembrar a hegemonia indissociável do Cerrado, do qual é planta indicadora

A seguir – O ambiente mais próximo ao canal do rio das Mortes é notadamente mais úmido e abriga flora um tanto mais diversa daquela encontrada nos afloramentos de arenito acima: arvoretas mais diversificadas, palmeiras justafluviais e diversas aráceas se exibiam à vista, em meio ao frescor do spray das cascatas



Acima – Anthurium sp. (Araceae), com decorativas folhas e “ninhos” de raízes captoras de detritos


Acima – Urospatha sagittifolia (Araceae) se adapta bem ao ambiente semiaquático junto ao caudal do rio das Mortes


Acima – As lindas flores de Jacaranda cuspidifolia (Bignoniaceae)

Acima – Curioso registro de plantas aquáticas dessecadas durante o período de baixa do rio das Mortes

Acima – Sérgio Basso mostra a beleza dos saltos do rio das Mortes


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

REVISITANDO O HABITAT DE UMA BROMÉLIA DO GÊNERO DYCKIA, EM MATO GROSSO – OUTUBRO 2017




Depois de muitos anos, desde a primeira visita ao habitat de uma interessante espécie de bromélia do gênero Dyckia, no Sul do estado de Mato Grosso (ver postagem http://expedicaofitogeografica2012.blogspot.com.br/2015/04/encontrando-novas-populacoes-de.html  ), algumas outras indagações haviam surgido, além, é claro, da própria identidade da minúscula e elegante plantinha, que prossegue sem elucidação: que tipo de habitat abrigaria preferencialmente essas espécies-relíquia da flora americana? Por que surgiriam populações segregadas de algumas delas? E por que surgiriam esses endemismos restritos, em meio ao oceano de cerrados, que se estende nessa região do Centro-Oeste?

Nada mais alvissareiro que ter ao meu lado, nesta excursão (que faria parte de uma expedição maior – ver postagens subsequentes, em elaboração), o grande amigo, companheiro de velhas incursões pela região -  Sérgio Basso - que fora, aliás, quem me conduzira ao local, na primeira visita, em 2001). Partimos de Primavera do Leste, onde está centralizado o projeto da Reserva Natural da Fazenda Ipanema, nosso endereço naturalista no Mato Grosso, tendo como objetivo o habitat da minúscula Dyckia sp., em meio aos domínios do chamado Planalto dos Alcantilados, ao longo da rodovia BR070.

O Planalto dos Alcantilados é uma subdivisão geomorfológica, que congrega velhos morros testemunho, deixados para trás pela ciclópica erosão diferencial, que individualizou uma série de mesetas ou tepuis, que são aqueles morrotes de cimeira plana, que se espalham pelo Brasil Central. Ecologicamente, liga duas gigantescas depressões de origem entre o final do Terciário e início do Quaternário: Pantanal Matogrossense e Planície do Araguaia. Nossa investigação não se limitaria ao platô das Dyckias, mas se estenderia a outros morrotes isolados, situados na região, embora já conhecêssemos alguns deles.

Para nosso alívio, a restrita população de Dyckia sp. lá estava, na mesma situação praticamente em que a encontramos, cerca de dezesseis anos atrás: grande quantidade dessas pequenas bromélias esculturais e espinhentas a se espalhar nas bordas de microafloramentos de arenito muito friável; em meio a cascalhos e clastos recém-desprendidos; ou em microdepressões recobertas de areia; dividindo espaço com velosiáceas, orquidáceas, melastomatáceas e farta quantidade de gramíneas, entre nativas e invasoras. Muitas delas haviam florescido recentemente e ainda sustentavam cápsulas repletas de sementes.

Essas plantinhas são realmente muito resistentes, em seu habitat, vegetando agarradas diretamente à rocha sã, ou, quando muito, metendo suas raízes sob pedregulhos calcinados, onde parecem conseguir um pouco de umidade a mais. De todo modo, cozinham sob o sol escaldante do Mato Grosso, resistindo sobre essas velhas cimeiras de rocha avermelhada. Quase inexistem elementos arbóreos no local, o que chama atenção, por diferir de algumas outras Dyckia spp. da região, tal como se observa no habitat de Dyckia rondonopolitana e D. secundifolia (ver postagem - http://expedicaofitogeografica2012.blogspot.com.br/2016/11/visita-ao-habitat-de-bromelias-do.html).

Lá estavam aquelas pequenas plantas ruborizadas, muito decorativas, entremeadas aos demais indivíduos de coloração típica esverdeada, sugerindo estratégia de resistência. O habitat desta Dyckia sp. ocupa claramente um tipo específico de afloramento rochoso de arenito, em que inexistem blocos diaclasados (boulders ou matacões). Embora perigosamente restrito, em face de sua superfície total nada extensa, o afloramento conta com alguns hectares, havendo outros similares, nas cercanias, que não nos foi dado examinar, infelizmente.

Estivemos a examinar outros morros-testemunho, no entorno de até uns cinquenta quilômetros, sem que pudéssemos encontrar quaisquer outras populações dessa plantinha, ou sequer das orquídeas e outras plantas rupícolas ou saxícolas que lhe acompanhavam nesse afloramento. Parece que, a depender da natureza do arenito envolvido no surgimento desses afloramentos, tanto quanto dos processos erosivos que lhes exumaram do coração do solo, esses afloramentos realmente funcionam como ilhas e, como tal, sujeitam-se aos processos biogeográficos que regem sua ecologia.

A região do Planalto dos Alcantilados, assim como algumas de suas circunvizinhas, é abundante em bromélias do gênero Dyckia. Porém, nunca conseguimos encontrar outra população dessa linda plantinha, cuja identidade espero ainda vir conhecer. Em 2022, após uma importante expedição pelo Planalto dos Alcantilados, cujo relatório consta de meu TERCEIRO LIVRO - UM NATURALISTA, VIAGENS PELO MATO GROSSO (NAU Editora, 2025 - vendas através do site www.naueditora.com.br - publicamos um artigo tratando exatamente deste assunto, que pode ser examinado em https://www.agbbauru.org.br/publicacoes/revista/anoXXVI_4/agb_xxvi_4_web/agb_xxvi_4-18.pdf

Acima - aspecto geral do habitat de Dyckia sp., em Mato Grosso, com inúmeros clastos que descamam da rocha de arenito e as minúsculas bromélias, em meio à macega

Acima - arvoretas surgem apenas em depósitos de solos, em meio a frestas na rocha

Acima - as pequenas bromélias Dyckia sp. ocorrem preferencialmente nas bordas dos afloramentos

Acima - também se aglomeram em pequenas bacias, repletas de areia, vegetando juntamente com Vellozia sp.

Acima - observam-se exemplares de coloração vinácea, lado a lado com outros que carregam a tonalidade tipicamente verde

Acima - recentemente floridas, algumas plantas carregavam cápsulas cheias de sementes

A Seguir - aspecto geral do habitat de Dyckia sp. revisitado


Acima - característico arenito em casco de tartaruga, ao lado do qual ocorrem as Dyckia sp.


Acima - as diminutas bromélias vegetam juntamente com orquídeas Epidendrum campestre

Abaixo - o autor do blog - Orlando Graeff - examina as minúsculas Dyckia sp. do Mato Grosso