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Visita a um fragmento de florestas do Mato Grosso de Goiás – junho de 2024

 Entre 19 e 25 de junho de 2024, estive uma vez mais na região de Pirenópolis, Goiás, em meu caminho para o estado do Mato Grosso. Baseado n...

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

NOVA VISITA À SERRA DA CANASTRA – MINAS GERAIS – SETEMBRO DE 2018




Cachoeira da Casca D’Anta – símbolo da Serra da Canastra


A Serra da Canastra já se transformou em destino usual, depois de tantos anos desde que a conheci (veja as postagens anteriores: https://expedicaofitogeografica2012.blogspot.com/2013/01/serra-da-canastra-laboratorio-de-campos.html ; https://expedicaofitogeografica2012.blogspot.com/2016/02/serra-da-canastra-fevereiro-de-2016-em.html  ),  não tendo sido à toa que este magnífico afloramento de quartzitos do Arco da Canastra e Brasília ajudou a fundamentar diversas seções de nosso livro – FITOGEOGRAFIA DO BRASIL (NAU Editora, 2015  vendas pelo site www.naueditora.com.br) – principalmente no que diz respeito às origens dos campos e às vegetações de campos rupestres.

Desta vez, mais uma vez a caminho do Mato Grosso, realizei uma digressão à Serra da Canastra, onde me encontrei com Elossandro Coelho, que de guia profissional se transformou em grande amigo e companheiro nas excursões pela região. Durante dois dias, vasculhamos diversos locais, entre muitos velhos conhecidos e outros ainda novidades, em busca de imagens e informações sobre a natureza canastrense.

Confira a seguir as fotos comentadas e faça mais um passeio conosco pela Serra da Canastra:

Abaixo: A primeira seção da passagem pela Serra da Canastra se deu pela sua base, na vertente sudoeste do maciço principal, onde está situada a cachoeira da Casca D’Anta, famoso postal da região. Ali, o recém-nascido rio São Francisco despenca do chapadão, para seguir viagem até sua foz, no Nordeste



A seguir – Nessa região mais baixa, situada entre os 900 e os 1.000m, a flora é marcada por espécies mescladas entre a Floresta Atlântica e o Cerrado, sendo a sucupira-preta (Bowdichia virgilioides – família Fabaceae) árvore importante e que, em nossa passagem, apresentava-se em exuberante florescimento


Acima – O abraço das árvores da Serra da Canastra


Acima – Sacoila lanceolata (família Orchidaceae)

A seguir: Panoramas cativantes da Serra da Canastra

Acima – Paisagem rural, com o guapuruvú (Schizolobium parahyba – família Fabaceae) na sede de uma fazenda e o chapadão do Parque Nacional da Serra da Canastra ao fundo

Acima – Altaneiro exemplar de macaúba (Acrocomia aculeata – família Arecaceae) sustentando ninhos pendentes de japús (Psarocolius decumanus – família Icteridae) nas folhas


Acima – Na floresta semidecidual, a linda Ouratea castaneifolia (família Ochnaceae), que já havíamos avistado no topo do Chapadão da Babilônia (ver postagem https://expedicaofitogeografica2012.blogspot.com/2013/01/serra-da-canastra-laboratorio-de-campos.html  ), em meio aos campos rupestres. A planta atrai muitas abelhas nativas

Acima – Em meio à floresta ciliar, observamos Justicia riparia (família Acanthaceae), muito comum nas florestas estacionais de altitude de Minas Gerais

Acima – Grandes exemplares de palmiteiros (Euterpe edulis – família Arecaceae) despontam no dossel da floresta estacional semidecidual ciliar da Casca D’Anta


Acima – Vista proximal do salto da Casca D’Anta. Acima dela, as nascentes do rio São Francisco, no Parque Nacional da Serra da Canastra



A seguir: Após a visita à cachoeira da Casca D’Anta, subimos o Chapadão da Babilônia, uma linha de cumeada paralela àquela do Parque Nacional da Serra da Canastra e ainda hoje em mãos de particulares, que lá conduzem pecuária tradicional. O fogo muito insistente tem ajudado a manter a paisagem de extrema pobreza fisionômica, embora capões de matas bem conservadas ainda existam



Adiante: Do cascalho quartzítico calcinado pelos incêndios repetitivos ainda emergem belas flores e plantas


Acima – Bromelia sp. (família Bromeliaceae)


Acima – Espécie comum de fabácea (leguminosa) após as queimadas

A seguir: Na faixa altitudinal dos 1.300m, surgem capões de floresta, nos quais ainda se observa vegetação bem conservada de floresta estacional semidecidual de altitude, com notáveis elementos florísticos

Acima – Sobre um fragmento de rocha preservada, em meio à floresta densa, uma população de bromélias do gênero Billbergia


Acima – Palmeirinha típica dos sub-bosques da floresta atlântica de altitude da Serra do Mar aparece também na Canastra: Geonoma schottiana (família Arecaceae)


Acima – Philodendron cf. appendiculatum é a arácea mais importante nessas florestas encravadas na paisagem campestre da Babilônia


Acima – Num terço inferior de tronco da floresta, a micro-orquídea Lankesterella cf. ceracifolia, planta delicada e exigente


A seguir: Afloramentos de rochas de quartzito, na cumeada do Chapadão da Babilônia e da Canastra revelam claramente a direção dos mergulhos clinais do velho embasamento. Antigas dobras da rocha metamórfica, formada pela gigantesca pressão das rochas ígneas subjacentes, que ascendiam com força descomunal, foram posteriormente decompostas pela erosão milenar, que hoje exibe a direção das ondas de energia de um passado de mais de 500 milhões de anos

Acima – Delicadas e vistosas Gaylussacia brasiliensis se abrigam nas frestas formadas entre as camadas de quartzito decomposto


Acimas – Detalhe de Gaylussacia brasiliensis (família Ericaceae)


Acima – Por entre as arestas laminares do quartzito da Serra da Babilônia, também se abrigam outras plantas que procuram escapar ao fogo destruidor, ateado insistentemente aos campos da região: a cactácea colunar Pilosocereus machrisii, já rara na região da Canastra



Adiante: No segundo dia desta recente visita, dedicamos nosso tempo a reexaminar o altiplano da Serra da Canastra, na área do Parque Nacional, onde também são marcantes os afloramentos avançadamente arruinados de quartzito, onde vegetam algumas espécies características dos campos rupestres


Acima – A bromélia Dyckia minarum se esconde nas partes mais isoladas da rocha, onde o fogo não chega a atingi-la diretamente



Acima e abaixo – Vriesea sanfranciscana (família Bromeliaceae) é planta endêmica restrita ao maciço. Parece ter se adaptado bem, tanto à passagem contumaz do fogo, quanto à visível predação por parte de algum herbívoro, como mostram suas folhas invariavelmente tisnadas pelas chamas e semidevoradas. Mesmo assim, floresce normalmente nesses afloramentos do topo da Canastra. Nessa época, suas flores estavam passadas




Acima – Nos campos limpos, que dominam áreas de solos rasos, sobre quartzitos fragmentados, surgem lindas surpresas, tais como a eriocaulácea Paepalanthus canastrensis, que também é planta restrita ao maciço da Serra da Canastra.
Abaixo – Detalhe de Paepalanthus canastrensis



A seguir: Os cenários da Serra da Canastra são mesmo estonteantes, lançando vistas de grande profundidade, nas quais os campos limpos são o pano principal da paisagem, entremeados por capões ou agrupamentos de arvoretas cinéreas, como as candeias (Eremanthus spp. – família Asteraceae)




Abaixo – Em meio à macega densa dos campos sobre rochas (que são a natureza dessa vegetação limpa da Canastra), despontam flores vistosas de velosiáceas violeta



Acima – Vellozia intermedia (família Velloziaceae), numa área recentemente queimada dos campos limpos da Serra da Canastra


Acima – Lindas flores emergem apressadas, dos restos calcinados dos incêndios campestres da Serra da Canastra – Lippia cf. lasiocalycina da família Verbenaceae


Acima – Trimezia juncifolia (família Iridaceae)


Acima – Curioso ornamento ao redor de uma jovem eriocaulácea da Serra da Canastra, provavelmente formado por atividades de formigas


A seguir – A presença de meu amigo Elossandro Coelho, da Caminhos da Canastra, despertou os ingredientes ornitológicos da expedição, tendo sido fotografadas algumas aves:

Acima – Ariramba-de-cauda-ruiva (Galbula ruficauda – família Galbulidae), na floresta da base da Casca D’Anta

foto - Elossandro Coelho
Acima – O célebre e raro galito (Alectrurus tricolor – família Tyrannidae) interpreta incríveis exibições territoriais-nupciais, na Serra da Canastra


Acima e abaixo – Pudemos ficar relativamente próximos de uma forma juvenil da portentosa águia-serrana (antes conhecida como águia-chilena – Geranoaetus melanoleucus – família Accipitridae)




Acima e abaixo – O raríssimo e ameaçado inhambu-carapé (Taoniscus nanus – família Tinamidae), avezinha minúscula e arisca, que somente nos foi dado observar por imensa sorte



Acima – Elossandro Coelho, da agência Caminhos da Canastra: guia confiável e experiente na Serra da Canastra, além de um grande amigo. Conhecedor da geografia e especialmente das orquídeas e das aves da região

Abaixo - Orlando Graeff – autor do blog – examinando a vegetação de campos da Canastra, num trecho bem conservado.


Acima – O trabalho prazeroso na Serra da Canastra






segunda-feira, 3 de setembro de 2018

VISITA AO ALTIPLANO DA SERRA DA MARIA COMPRIDA – PETRÓPOLIS – RIO DE JANEIRO – JUNHO DE 2018



Tillandsia reclinata - Bromeliaceae

Em junho de 2018, subimos até o altiplano da Serra da Maria Comprida, em Petrópolis, estado do Rio de Janeiro. Nosso pequeno grupo de excursionistas era formado pelo jovem Nathan Gazineu (ver link - Nathan e as Orquídeas https://orlandograeff.blogspot.com/2011/01/nathan-e-as-orquideas.html ); pelo nosso responsável de manutenção do Jardim Fitogeográfico Ezequiel Botelho; e por mim – Orlando Graeff. Nosso principal objetivo era examinar o habitat de uma pequena bromélia de ocorrência extremamente restrita, que vem sendo perigosamente ameaçada pela coleta criminosa – Tillandsia reclinata, planta de natureza litofítica, que somente ocorre num diminuto pedaço de rocha e em mais nenhum outro lugar do planeta.
OBS: posteriormente a esta excursão, surgiram diversas notificações a respeito de novas populações de Tillandsia reclinata, todas elas situadas ali mesmo, na Serra da Maria Comprida, estando elas em fase de investigação.

Há muito, temos nos ocupado em estudar algumas raras espécies de plantas exclusivas do sistema Serra dos Órgãos, ao qual se encontra geologicamente vinculada a Serra da Maria Comprida. Além de tentar explicar esse misterioso padrão de dispersão endêmica restrita, nossa constante preocupação vem sendo investigar a pesada pressão de coleta criminosa, que tem se abatido sobre essas espécies. Mesmo tendo diminuído sobremaneira o interesse por plantas vindas da natureza, por parte dos colecionadores e amantes de plantas, o que se deveu principalmente ao notável desenvolvimento de estoques comerciais, advindos de cultivo, alguns setores não mostram sinais de exaustão, em sua cobiça por plantinhas como essas. Motiva-lhes, sabemos bem, uma vergonhosa vaidade que lhes impede descansar, até que possam dizer aos seus pares que “são alguns dos poucos a possuir determinada planta raríssima”.

Veja sobre isso nossa postagem anterior, em meu blog pessoal - Orlando Graeff Escreveu - que trata desse problema do tráfico de plantas (Link - E se todos fizessem isso? https://orlandograeff.blogspot.com/2013/01/e-se-todos-fizessem-isso-coleta-ou.html )

A coleta de plantas na natureza, com finalidades comerciais, é crime previsto na Lei do Crime Ambiental e pode ocasionar a prisão dos envolvidos. Mesmo assim, mateiros e aventureiros formam hoje uma rede complexa de coletores e traficantes, que assaltam os habitats, em busca de ESTOQUES de raridades, que lhes rendem polpudas quantias, quando remetidas aos referidos colecionadores inescrupulosos. Esse moto nocivo já determinou horrendos prejuízos à vida silvestre, em várias partes do mundo, sendo caso notório o dos rinocerontes africanos, abatidos apenas para a extração da ponta do chifre; assim como dos ainda mais conhecidos elefantes, por conta de seu marfim.

A excursão foi extremamente proveitosa, por nos permitir observar diversos ambientes e espécies que, um dia, foram contempladas pelos decisivos estudos do naturalista Gustavo Martinelli, que desvendaram a botânica e a ecologia dos campos de altitude da região. Do exame das atuais condições daquele altiplano, restou claro o alarmante estado de penúria a que se encontra submetida a pequena Tillandsia reclinata, havendo sinais claros de recente coleta comercial e estando seu remanescente cada dia mais exaurido. Também observamos que os resultados do contínuo pastoreio dos campos de altitude e afloramentos rochosos, por parte de cavalos, assim como o fogo, que continua se alastrando ciclicamente, já colocam todo o ecossistema em risco gravíssimo.

A beleza marcante das paisagens divisadas daqueles campos, assim como sua ainda interessante riqueza florística, em muito recomendariam a implantação de um parque natural, através de uma trilha contemplativa, que seria a única esperança de conservação para seu tesouro de biodiversidade. Não há mais como acreditar que o mero abandono da área possa desestimular invasões furtivas e depredações, apenas confiando na dificuldade de acesso. Somente o manejo ecoturístico e a facilitação da vigilância e combate ao fogo poderão trazer esperanças de salvação ao patrimônio natural local.
OBS2: Também à posteriori a este artigo do blog, a área foi contemplada pela criação de uma Unidade de Conservação denominada MONUMENTO NATURAL DA MARIA COMPRIDA, que já serviu para dar alento à causa de sua conservação. Porém, seu status de proteção é irrisório e ainda faltará intensa fiscalização e implementação de manejos que a protejam.

Veja, através das imagens apresentadas, um pouco sobre o altiplano da Serra da Maria Comprida:


Acima – A Serra da Maria Comprida é geologicamente vinculada à Serra dos Órgãos, muito embora possua individualidade geomorfológica, representando universo ecológico próprio, com pontões graníticos e gnáissicos fragmentados. Escorrimento milenar de água produziu “riscados” típicos e os paredões abrigam flora única


A Seguir – A vegetação do altiplano é um mosaico de afloramentos rochosos e campos de altitude, mesclando assim floras complementares, originadas em paleocampos frios e evoluídas em ambientes rochosos secos e ensolarados


Acima – Não é difícil perceber-se o dano gradualmente imposto à vegetação e à flora pela ocorrência recidiva do fogo criminoso. As manchas de campos recuam e a composição da flora se empobrece, em favor de gramíneas exóticas e de algumas poucas espécies nativas mais tolerantes aos incêndios cíclicos


Acima – Nesta imagem, percebe-se exemplares isolados de rabo-de-galo (Worsleya procera – família Amaryllidaceae) resistindo ao avanço da degradação. Ao fundo, o restante do maciço da Maria Comprida, com a Serra dos Órgãos ao fundo e os Três Picos ao longe


Acima – Embora já bastante pressionados pelo fogo, pela coleta criminosa e pelo pastoreio, persistem populações de rabos-de-galo, que preferem a beirada das cristas rochosas, onde recebem farta iluminação solar e conseguem escapar à coleta criminosa


Acima – Meus dois companheiros de aventura, na Serra da Maria Comprida: Ezequiel Botelho e Nathan Gazineu




Acima – Notáveis populações de bromélias e plantas adaptadas ao ambiente extremo dividem espaço no altiplano da Serra da Maria Comprida. Destaque para belas formas de Vriesea pseudoatra, com folhas vináceas, que contrastam com o restante da vegetação



AcimaPerspectiva assustadora: em primeiro plano, o rabo-de-galo em flores; ao fundo, na borda do campo e debruçado sobre o vale, um exemplar de pinheiro-americano invasor. Essas coníferas exóticas da aliança de Pinus elliottii são extremamente prolíficas e adaptadas ao ambiente de solos rasos, pobres e sob climas frios, o que lhes capacita perigosamente a tomar por completo em futuro médio, a paisagem das cumeadas

Adiante – Flora singular ainda resiste nos campos de altitude e afloramentos rochosos da Serra da Maria Comprida


Acima – Philodendron edmundoi (família Araceae)


Acima – Zygopetalum maculatum (família Orchidaceae)


Nas três fotos a seguir – A bela Prepusa connata, da família Gentianaceae, um elemento florístico de índole originalmente alpina





Acima – Ilha de vegetação rupestre, congregando dois tipos diferentes de bromélias: a imensa e escultural Alcantarea imperialis; e sua parente muito menor Neoregelia longipedicellata, planta muito restrita e rara


Acima – A célebre Amaryllidaceae Worsleya procera, conhecida como rabo-de-galo, planta exaustivamente perseguida pelos traficantes de plantas
Abaixo – Orlando Graeff (autor do blog) entre rabos-de-galo, no alto da Serra da Maria Comprida




Acima – Como resistir ao encanto de Worsleya procera? Nathan se debruça sobre a bela planta
Abaixo – Fotografando as flores do rabo-de-galo




Acima – Quanta honra! Examinando o único exemplar conhecido do bambuzinho primitivo Glaziophyton mirabile (família Poaceae)

Adiante – Consegue ver aquelas minúsculas plantinhas, encarapitadas sobre alguns poucos metros quadrados de rocha nua? São tudo o que a natureza ainda guarda da raríssima bromélia Tillandsia reclinata. É ou não é razão bastante para preocupação, em face da coleta criminosa que sobre ela se abate?


Abaixo – Poucos exemplares resilientes de Tillandsia reclinata buscam proteção sobre a rocha, penduradas acima de centenas de metros de paredões rochosos. O engenho maligno dos coletores furtivos, contudo, não as perdoará, em nome da cobiça nojenta de colecionadores, que pagarão altos preços por algumas plantinhas