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Visita a um fragmento de florestas do Mato Grosso de Goiás – junho de 2024

 Entre 19 e 25 de junho de 2024, estive uma vez mais na região de Pirenópolis, Goiás, em meu caminho para o estado do Mato Grosso. Baseado n...

domingo, 22 de abril de 2012

VITÓRIA DA CONQUISTA – PLANALTO DAS ORQUÍDEAS

                Texto revisado em dezembro de 2024


               Finalmente, na manhã do dia 17 de abril, uma terça-feira, partimos de Ubaitaba, na Costa do Cacau, no rumo de Boa Nova, na borda do Planalto de Vitória da Conquista. Depois de termos retornado à BR-101, por falta de condições de prosseguir, até o Planalto, no dia anterior (ver Nas Matas de Cacau da Bahia), agora teríamos o dia inteiro para contemplar a transição entre as densas florestas do litoral baiano e o Semiárido Nordestino, um contraste que somente poderia fazer surgir flora singular.
               As florestas da rodovia que liga Ubaitaba à BR-116, passando por Dário Meira e Boa Nova, não apresenta as mesmas matas de cacau que víramos na véspera. Grande parte delas foi, há muito, transformada em pastagens pobres e decadentes. Mas, não deixamos de ficar surpresos com o surgimento de lindas paisagens montanhosas, em tudo similares àquelas que estamos acostumados a ver, na Serra da Mantiqueira, no Sul de Minas. A umidade do litoral, ao encontrar os contrafortes do Planalto Atlântico, se condensa e abastece essas encostas com chuvas constantes, produzindo cenários agradáveis, ainda que, em nosso ver, um tanto mal aproveitados pelo homem.
               A transição para o Semiárido se dá aos 900m, até 1.000m, fazendo-se de forma tão mais abrupta do que aquela em que se dá a passagem das florestas litorâneas para aquelas mais secas do reverso serrano do Sudeste. Em poucos quilômetros, observamos a mata atlântica verdejante se converter numa matinha ressecada e de aparência triste, exatamente nos arrabaldes da diminuta Boa Nova. A flora, contudo, não nos decepcionou e pudemos examinar uma incrível variedade de orquidáceas, bromeliáceas e outras plantas atraentes, arranjadas de forma bastante complexa, em meio a uma floresta intrincada e muito densa: Chamam-na “mata de cipó”, na região, por conta de sua fisionomia quase indevassável.
               Estivemos hospedados por dois dias, em Vitória da Conquista, em torno da qual fizemos diversas excursões bastante ilustrativas sobre suas vegetações. Fomos especialmente orientados por Raymundo Reis, exímio conhecedor da flora regional, que nos apontou os melhores locais para encontrar singularidades florísticas. Dois locais nos impressionaram sobremaneira: O primeiro deles era um “pico”, ou melhor, um outeiro convexo, em plena planura da chapada, mas que se eleva, na verdade, pouco acima dos 1.000m acima do nível do mar; O segundo, situado numa depressão extraordinariamente úmida, abriga densa floresta estacional, com árvores de porte incomum e notável presença de plantas epífitas.
               O primeiro desses locais, de notável riqueza florística, especialmente em orquídeas e bromélias, seguia o caminho acelerado de seu desaparecimento, por conta de uma imensa pedreira, na qual se extrai e mói o quartzito, com finalidades de suprir a pujante indústria da construção civil de Vitória da Conquista. Parte da montanha já foi consumida, sendo suas plantas empurradas com lâminas de tratores, antes da escavação de seu embasamento rochoso, praticamente sólido. Na escalada do desenvolvimento a qualquer custo, o país vem perdendo rapidamente suas melhores reservas florísticas, antes mesmo de terem sido adequadamente estudadas.

A seguir, algumas imagens dessa nossa passagem por Vitória da Conquista:

Abaixo: Bromélias agigantadas são numerosas, nas florestas secas de Boa Nova, na borda do Planalto de Vitória da Conquista. Uma delas nos chamou atenção, parecendo se tratar de Aechmea multiflora; O autor deste blog posa junto a uma dessas imensas plantas.






A Seguir: Numa estação pouco propícia às flores de orquídeas, conseguimos admirar algumas espécies floridas, na mata de cipós de Boa Nova.




Abaixo: Aspectos internos das florestas estacionais secas de Vitória da Conquista, no Planalto ao sul da Bahia. A presença de plantas epífitas é realmente notável nestes ambientes; Numa das imagens, observa-se a extração industrial de quartzito, para construção civil da região, fazendo desaparecer importantes populações de orquídeas e bromélias.










Nestas fotos: Uma pequena bromélia terrestre do gênero Cryptanthus, nas florestas do Planalto de Vitória da Conquista; Imensas populações de bromélias cobrem o solo das florestas estacionais, nessa transição entre Mata Atlântica e Semiárido Baiano.





sexta-feira, 20 de abril de 2012

NAS MATAS DE CACAU DA BAHIA

            Texto revisado em dezembro de 2024
               

            O principal objetivo do dia 16 de abril de 2012 seria atingir as cercanias da pequena cidade de Boa Nova, na interface entre a zona das florestas litorâneas e os domínios do Semiárido Nordestino. Neste momento, eu já contava com a valiosa presença de meu amigo Maurício Verboonen, que me tem acompanhado em diversas expedições e viagens, pelos confins do país, em busca dos conhecimentos sobre nossa natureza. Partimos por estradas vicinais de terra, em meio às densas florestas que são chamadas “matas de cacau”, pelo fato de estarem associadas àquela cultura tradicional.
               As matas de cacau ocupam zona relativamente montanhosa, que muito nos faz lembrar nossas serras fluminenses, apesar de não contarem com elevações tão espetaculares como aquelas. São morrarias convexas, aqui ou ali, entrecortadas por afloramentos de granitoides, que lhes formam o embasamento geológico. Trata-se, talvez, da derradeira grande expressão litorânea do Planalto Atlântico, que tanto influencia a climatologia e, evidentemente, a vegetação e a flora do Brasil Central e Nordeste.
               O nome “matas de cacau” não é nada equivocado. Apesar de representar elemento que foi introduzido pelo homem, como cultura agrícola, o cacau ocupa praticamente todo o sub-bosque atual da Mata Atlântica da região de Ilhéus e Itabuna. A doença vassoura-de-bruxa, que todos afirmam ter sido introduzida criminosamente na região, há muitos anos, quase aniquilou a cultura do cacau. Por conseguinte, ameaçou perigosamente a dinâmica ecológica artificialmente induzida pela cultura cacaueira, que fora de certa forma responsável por não terem desaparecido por completo essas florestas, como aconteceu no Vale do Jequitinhonha (do qual falei, no post anterior). Com novas técnicas agronômicas, os produtores vêm buscando a restauração de seus pomares, o que dá novo alento para a cultura. Infelizmente, as políticas públicas parecem não ter ajudado nada, nos últimos tempos.
               Pelo péssimo estado de suas estradas e pelo imenso interesse que nos representou essa floresta, abortamos nossa subida ao Semiárido, pois não haveria tempo para tanto, num só dia. Rodamos cerca de 200km pelo interior e permanecemos na região, deixando nossa entrada no sertão para o dia seguinte. Veja, a seguir, algumas imagens comentadas sobre as matas de cacau da Bahia.


Fotos a seguir: As florestas da região de Ilhéus e Itabuna somente existem hoje, graças à cultura do cacau, que quase desapareceu, por causa da vassoura-de-bruxa, o que ameaçou gravemente sua conservação. Cacau e florestas resistem juntos. Nas imagens a seguir, surgem alguns aspectos dessa pujante vegetação, na qual as eritrinas ou mulungus (Erythina sp. cf. verna) foram adensadas artificialmente, para melhorar o sombreamento do cacau. Mas, há inúmeras outras árvores de beleza marcante, sobre as cabruncas, que são os pomares sombreados sob a mata.









Adiante: A marca registrada dessas admiráveis florestas é a presença abundante de plantas epífitas, principalmente das bromeliáceas, com suas rosetas repletas de água, que interagem com a fauna. Mas, orquídeas, cactáceas e muitas outras famílias se encontram ali representadas.






Acima: Dimeranda emarginata (Orchidaceae). Poucas orquídeas se encontravam floridas, nesta época.


Abaixo: A fazenda da Sra. Lola Gédéon Lucas, que conhecemos, ao passar na região. Ali se encontra preservada toda a arquitetura típica das velhas fazendas cacaueiras da região, não sem extremo sacrifício econômico-financeiro, por parte de seus proprietários.





quinta-feira, 19 de abril de 2012

O VALE DO JEQUITINHONHA

               Texto revisado em dezembro de 2024

                Não foi assim tão fácil deixar Grão Mogol, depois de ter conhecido sua gente e suas paisagens. Mas, a expedição precisava prosseguir e eu já tinha encontro marcado com meu amigo e companheiro de viagens pelo Brasil, Maurício Verboonen, que chegaria a Ilhéus, vindo do Rio de Janeiro, para conhecermos a interface entre a exuberante floresta da região do cacau e o Planalto de Vitória da Conquista, onde imperam vegetações áridas de notável diversidade. 
               Minha viagem prosseguiu, então, pelo Vale do Jequitinhonha, seguindo-o até próximo de sua barra, no litoral da Bahia, junto a Salto da Divisa. O Vale do Jequitinhonha é famoso e já originou muitas histórias, desde tempos imemoriais, quando índios Botocudos dominavam e aterrorizavam os colonos portugueses, nos Séculos XVIII e XIX. Saint-Hilaire conheceu o vale e os Botocudos, tendo discorrido longamente sobre Joaíma, famoso cacique daqueles índios, depois extintos. O naturalista francês chegou até Araçuaí e às margens do Jequitinhonha, no final da segunda década do Século XIX, tendo referido suas florestas de admirável beleza que, em grande parte, assim como os Botocudos, extinguiram-se definitivamente. 
               Mas, ainda pude observar alguns preciosos fragmentos dessas florestas, que me permitiram interpretar razoavelmente sua natureza. Esse trabalho de investigação das vegetações do Brasil vai se tornando atividade pericial, nesta segunda década do Século XXI, quase dois séculos após a passagem de Saint-Hilaire. Do que pude observar, já existiram vastas florestas estacionais, com pronunciada aridez, no alto e médio Vale do Jequitinhonha. Hoje, grande parte das matas que cobriam as superfícies de cimeira das chapadas argilosas, entre Grão Mogol e o município de Berilo são cobertas por eucaliptais, que atravessei, ao longo de muitos quilômetros. 
               Próximo a Araçuaí, podem ser observadas florestas decíduas, cujo aspecto desfolhado se antecipou sobremaneira, neste ano de secas precoces e um tanto severas. Lindas arvoretas de Bougainvillea sp. Se mostravam indiferentes à seca, que ressaltava a forte presença de mandacarus (Cereus jamacaru), que são cactáceas indicadoras do perímetro semiárido do país. 
               Durante esta viagem pude observar a primeira divisa de incrível nitidez entre o perímetro semiárido e as florestas densas e úmidas do litoral, na altura da cidade de Jequitinhonha. Ali, podem ser vistas matas notáveis, que justificaram a criação da Reserva Biológica da Mata Escura. Deste ponto para diante, a presença das florestas, hoje quase completamente desaparecidas, se tornaria uma constante, até que adentrasse a Costa do Cacau, na Bahia, onde elas passam a dominar, graças à cultura do cacau. Mas, isso será assunto para outra postagem, quando comentarei nossa passagem pela região de Ilhéus e Itabuna. Acabei pernoitando em Itabuna, aonde cheguei ao entardecer do dia 15 de abril, depois de ter rodado cerca de 500km, pelo Vale do Jequitinhonha.


Fotos abaixo: A linda Bougaivillea sp., que povoa nossos jardins, nas grandes cidades, é uma das espécies mais resistentes das florestas secas do Vale do Jequitinhonha. Nessas duas imagens, ela aparece próxima e pontilhando a mata decídua das encostas, próximo a Araçuaí, em Minas Gerais.







Fotos Adiante: Os despenhadeiros do Vale do Jequitinhonha, próximo à Usina Hidrelétrica de Irapé, ainda exibem florestas relativamente intactas. Sobre as chapadas planas, no entanto, nada mais pode ser visto que não sejam intermináveis eucaliptais.





Fotos a Seguir: O Planalto Atlântico domina a paisagem, entre Itaobim, próximo à BR-116, e o litoral da Bahia. Seus pontões e afloramentos graníticos se exibem como gigantescos monumentos às convulsões da Terra, de centenas de milhões de anos atrás. Também condicionam toda a climatologia da região e, é claro, suas vegetações.





Fotos Abaixo: O embate entre o homem e a floresta vem sendo perdido pela segunda, há muito, no Vale do Jequitinhonha. Das florestas avistadas por Saint-Hilaire, duzentos anos atrás, restaram alguns portentosos madeiros, além de matas danificadas e confinadas entre talhões de eucalipto.










domingo, 15 de abril de 2012

GRÃO MOGOL – VALE DO JEQUITINHONHA

               Texto revisado em dezembro de 2024

            O Vale do Jequitinhonha já foi referido como região muito pobre, mas isso parece povoar hoje, muito mais, o imaginário equivocado de quem não atravessa essa admirável vastidão do Norte de Minas. O que encontrei ali, nos dias de hoje, foi um vibrante embate entre o progresso e a necessidade de seu povo de preservar sua cultura de séculos, sua natureza, enfim. Cheguei a Grão Mogol, no dia 12 de abril, vindo de Unaí, do outro lado do São Francisco (ver postagem anterior), permanecendo ali até a manhã do dia 15, quando parti, acompanhando o Vale do Jequitinhonha, até a Bahia. Sobre a pequena Grão Mogol, somente algumas imagens selecionadas poderão mostrar um pouco do que eu vi por lá.
A Seguir - Cactáceas abundam, nos cerrados e campos rupestres de Grão Mogol. Foi criado um Parque Estadual, que deverá proteger sua flora imensamente diversificada e com notáveis endemismos, que muito significam para a Fitogeografia.




A Seguir - A paisagem regional é estonteante, situando-se na zona de tensão entre o Cerrado, a Mata Atlântica e o Nordeste Semiárido. Há um pouco de cada modelado de relevo por ali, desde montanhas convexas, até feições residuais, com restos de cimeiras planas. Os campos rupestres são mosaicos de vegetações arbustivas, arbóreas e campestres e têm merecido especial atenção, em nossos estudos.




A Seguir - Algumas das atrações mais marcantes, em Grão Mogol, são os minicânions do rio Itacambiruçu ou Itacambiraçu, afluente do Jequitinhonha. Uma visita a essas estranhas paisagens revelará a natureza geológica/geomorfológica de toda a região, congregando arenitos muito vermelhos e friáveis aos quartzitos duros e escuros, relacionados à velha Cadeia do Espinhaço. As formas são curiosas e atraentes, resultados de longos processos erosivos.


A Seguir - Meu guia Paulo Henrique Silva, dublê de biker e ambientalista (que, afinal, são uma só coisa!), posa junto a uma bela população de orquídeas do gênero Cyrtopodium, nos campos rupestres. Suas lindas flores podem ser vistas numa outra imagem. Muitas são as cores e flores de Grão Mogol.







A Segir - Ponto alto da arquitetura local é a Matriz de Santo Antônio, uma bela igreja do Século XVIII, que já foi toda coberta por reboco. Ao ser restaurada, decidiu-se, acertadamente, revelar sua estrutura em pedras-são-tomé, habilmente dispostas, por mãos escravas. A cidade inteira, aliás, vem buscando processo similar, assumindo a beleza de seus materiais primários. O interior da Matriz vale uma visita cuidadosa, pois exibe madeiramentos preciosos, criativamente estruturados e adequados ao clima regional.







Deixei Grão Mogol com um gosto de vontade de retornar. Adeus e até breve, meus amigos do Vale do Jequitinhonha.
















sábado, 14 de abril de 2012

DO CENTRO-OESTE AO NORTE DE MINAS GERAIS

       Texto revisado em dezembro de 2024       

             O segundo e o terceiro dia da viagem foram passados integralmente nas estradas de Goiás e Minas Gerais, em meu caminho, no rumo do Nordeste Semiárido. Uma escala na cidade de Unaí, próximo a Brasília, serviu para dividir em dois dias a distância de cerca de 1.400km que separavam Barra do Garças da histórica cidade garimpeira de Grão Mogol, no Vale do rio Jequitinhonha, onde agora me encontro (de 12 a14/04/2012). Devo registrar que as conexões de internet não são satisfatórias, em grande parte do Norte de Minas Gerais, o que dificulta sobremaneira os recursos de posicionamento geográfico do Google Earth e Google Maps. Assim, ficarei devendo os roteiros desta fase da jornada.
               As terras goianas não representavam o foco desta expedição, mas não haveria como deixar de comentar os indícios avistados das vastas florestas estacionais que, um dia, dominaram boa parte do sul daquele estado, estendendo-se até São Paulo, Minas e parte do Mato Grosso do Sul. Os naturalistas que atravessaram o país, no Século XIX, conheceram o famoso Mato Grosso de Goiás, hoje praticamente esfacelado, após longa devastação. Saint-Hilaire foi muito preciso, nos anos de 1820, quando referiu, ao atravessar a região próxima à cidade de Goiás, então conhecida como Villa Boa: “Atravessei novamente a zona das grandes florestas do Mato Grosso de Goiás”. Os derradeiros fragmentos dessas florestas densas ainda podem ser avistados, entre o Vale do Araguaia e as proximidades de Brasília. Junto a Goiânia, por sinal, observa-se uma floresta relativamente bem conservada, no caminho para Brasília.
               Esse assunto é muito extenso para ser tratado aqui, neste blog, que tem como objetivo principal narrar minhas viagens pelo Brasil, por ocasião dos preparativos do livro de Fitogeografia, que estamos prometendo concluir, muito logo (FITOGEOGRAFIA DO BRASIL, UMA ATUALIZAÇÃO DE BASES E CONCEITOS - NAU Editora, 2015, com aquisição pelo site). Mas, não há como deixar se impressionar com a grandeza sugerida por essas florestas. Infelizmente, não nos foi possível realizar trabalho fotográfico a contento, por conta da exiguidade de tempo para cobrir a longa distância até o Norte de Minas Gerais.
               Também impressionaram os largos chapadões, existentes entre Brasília e Unaí, famosa cidade agrícola de Minas. Todos eles são complementares ao Planalto Oeste Baiano e, da mesma forma como se sucedeu no Mato Grosso, encontram-se atualmente cobertos por intermináveis lavouras de grãos. Pouco se poderia dizer, hoje em dia, sobre a vegetação que um dia lhes recobriu. Notáveis e risonhas são as paisagens do amplo vale que abriga Unaí, visivelmente influenciadas pelo calcário, cujos afloramentos ainda podem ser avistados, aqui e ali, abrigando flora característica. Essas paisagens cársticas são singulares e representam monumentos que impressionam os viajantes, até que sejam definitivamente consumidos pela indústria da mineração.
               Uma extensa depressão se estende, desde os chapadões de Unaí, até a margem do rio São Francisco. É a região das veredas, que pontuam as diversas áreas mais deprimidas da paisagem. Observa-se claramente que a natureza arenosa dos solos dessa região, que se mostra naturalmente arrasada por passado árido e climas subúmidos subsequentes, foi a responsável pelo surgimento das veredas. Elas diferem daquelas veredas do rio das Mortes e Araguaia: Por lá, elas se associam aos velhos meandros abandonados daqueles cursos d’água, ao passo que aqui, na depressão do São Francisco, elas se mostram concentradas em largas bacias de deposição das areias intensamente erodidas dos solos muito leves. Um cerrado muito singular recobre a região, sujeitando-se a uma exploração um tanto negligente, que mistura pecuária de baixa produtividade com exploração lenheira para as carvoarias mineiras.
               A região é muito pouco povoada e as duas margens do rio São Francisco diferem de forma notável: Deste lado, imperam as paisagens de que falei, relacionadas a certo esquecimento pelo agressivo processo de desenvolvimento, que hoje toma conta do Brasil; Na margem direita, no rumo de Montes Claros, percebem-se os indícios da franca explosão econômica do país e muito mais numerosa é a população, sendo essa região marcada por solos mais férteis e produtivos.
               A travessia do São Francisco, depois de vencer as áreas desérticas de sua margem esquerda, é sempre emocionante. Já pude atravessar este rio em pelo menos seis locais diferentes, desde suas nascentes, na Serra da Canastra, até o estado da Bahia. Desta vez, foi pela cidade de São Francisco, de onde segui direto à pequena, mas admirável Grão Mogol. Mas, de Grão Mogol, vamos falar na próxima postagem, pois certamente haverá muito a contar.


Acima: Afloramento de calcário, próximo a Unaí, Minas Gerais. Sobre essas paisagens excepcionais, medram vegetações singulares, tanto quanto suas floras.
Abaixo: Vistos de perto, os afloramentos exibem formas curiosas, com sulcos e arestas aguçadas formadas pela lenta dissolução pelas águas das chuvas. Em sua grande parte, vão sendo moídos para produção de calcário, prometendo desaparecer, em algum tempo.


Abaixo: Balsa do rio São Francisco, na altura da cidade de São Francisco, no norte de Minas Gerais.



Acima: Uma andorinha só não faz verão...
Abaixo: ...Pronto! Agora são duas, na cordoalha da balsa sobre o São Francisco.



Acima: A cidade de Grão Mogol, no vale do rio Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais.
Abaixo: Natureza de Grão Mogol.


 

terça-feira, 10 de abril de 2012

PARTINDO DO MATO GROSSO

Texto revisado em dezembro de 2024          

         Na terça-feira, dia 10 de abril de 2012, iniciou-se minha viagem, partindo da cidade de Primavera do Leste, no estado do Mato Grosso, em direção a Goiás. Estivera, por alguns dias, na Fazenda Ipanema, na margem do rio das Mortes, célebre afluente do Araguaia. Nesta fazenda, venho investigando preciosas reservas de cerrados e florestas-galeria, que foram preservadas do avanço das lavouras de grãos, que praticamente tomaram o território do Centro-Oeste. No livro recentemente lançado (novembro de 2024) UM NATURALISTA, VIAGENS PELO MATO GROSSO (NAU Editora, com vendas online), o leitor poderá conhecer um pouco mais sobre a Reserva Natural da Fazenda Ipanema, a partir de excursões realizadas por mim, durante os anos 1990 e mais recentemente também. No Instagram, através do #reservanaturaldafazendaipanema, também é possível acompanhar atividades mais recentes e belas imagens do local.
               Cerca de 350km separam a Fazenda Ipanema, em Primavera do Leste, de Barra do Garças, situada, esta segunda, na margem do rio Araguaia, no ponto exato em que este se vê tributado pelo rio Garças – daí seu nome: Barra do Garças – que é um de seus principais afluentes, na margem esquerda. Não chega a ser uma grande distância, mas o grande interesse que oferecem as paisagens da BR-070 obriga percorrê-la com olhos muito atentos, uma vez que abundam vegetações singulares, todas relacionadas ao Cerrado. Além disso, o planejamento da viagem, que seguiria praticamente direto, até o norte de Minas Gerais, impunha parada técnica, em Barra do Garças, na divisa com o estado de Goiás, desaconselhando seguir adiante, neste mesmo dia.
               Na imagem que apresento adiante, extraída do Google Earth, observa-se grau avançado de alteração da vegetação original, de toda a região, o que apenas acompanha a triste tendência de todo o Centro-Oeste. Contudo, cabe notar duas grandes áreas de vegetação, praticamente intactas, que se referem a reservas indígenas, pertencentes à etnia Xavantes, ou ao menos o que dela restou, nos dias atuais. Embora se saiba, na região, do estado aceleradamente degradado de sua fauna, essas duas áreas serviram para conservar extensa superfície das diversas vegetações relacionadas ao Cerrado. Infelizmente, o acesso é vedado a essas áreas e as relações conflitantes com os integrantes dessas tribos não convidam à pesquisa interna dessas áreas.
               De todo modo, não deixa de impressionar o viajante a paisagem de aspecto selvagem que se aprecia, ao cruzar essas reservas, ao longo da rodovia BR-070. Um longo corredor de cerrados, nos dois lados da pista, faz lembrar as estradas que conheci, nos anos de 1980, no Mato Grosso. Constitui verdadeira viagem no tempo e permite apreciar, ainda que de forma um tanto superficial, os aspectos fisionômicos e até a composição florística original dessa vegetação, em vias de desaparecimento. Ainda bem que temos a Reserva Natural da Fazenda Ipanema, para detalharmos nosso conhecimento sobre a flora do Mato Grosso.
               Ponto de extremo interesse é a localidade de Vila Paredão, que toma emprestado seu nome duma soberba formação geomorfológica, situada entre Primavera do Leste e General Carneiro, no rumo da Barra. Uma autêntica parede, cortada a pino, em antigos sedimentos Cretáceos, se estende, por longo trecho, paralelamente à rodovia. Impressiona o viajante atual, tanto quanto o fazia com os integrantes de caravanas e expedições, dos séculos XVIII e XIX, que seguiam de Villa Boa (atual cidade de Goiás) para Cuiabá, por terra. Dentre as magníficas ilustrações da Flora Brasiliensis, de Von Martius, figura o Paredão de que falamos, cercado de longos renques de buritis que, até os dias atuais, ainda acompanham os córregos, ao seu redor.
               Essas formações são conhecidas por frentes de cuestas e marcam o relevo de quase todo o perímetro subúmido brasileiro. Representam heranças de períodos áridos, nos quais imperavam estupendas forças erosivas, que geravam os pediplanos e peneplanícies do Brasil Central. Neste Paredão (também referido popularmente como Paredão Grande), observa-se recente avanço da dissecação abrupta do relevo, através de gigantesco desmoronamento de fatia de arenito. As camadas sedimentares superiores, mais jovens, se vão ficando penduradas, numa cota aproximada de 740m, onde ainda são identificadas velhas superfícies de cimeira da região. Na estrada, onde se margeia o imenso monumento natural, a altitude é da ordem de 600m.
               Barra do Garças também se encontra situada aos pés de serranias semelhantes: é a Serra Azul, que nada mais é do que uma disjunção local da lendária Serra do Roncador, na qual se supunha ter desparecido o famoso coronel Fawcett, que seguia velhas histórias de riquezas escondidas, nos sertões mato-grossenses. Atualmente, são os discos voadores e extraterrestres que povoam os mitos regionais e a Serra Azul possui até mesmo um discoporto, que virou atração turística local. Não obstante seus mitos, Barra do Garças possui geografia atraente, com cascatas e praias do rio Araguaia, que ficam lotadas, durante a estação seca, especialmente em julho.
               Daí para frente, no sentido nordeste, aproximadamente, estende-se a depressão do Araguaia, que domina grande parte de Goiás e Tocantins. Ab`Sáber atribuía similaridades geológicas-geomorfológicas às depressões do Araguaia e do Pantanal, cuja história teria sido marcada por intensa subsidência (afundamento) e entulhamento com sedimentos dos dois últimos milhões de anos – Quaternário. Meu rumo me levará para fora da depressão do Araguaia, pois seguirei na direção de Brasília, buscando a zona das grandes veredas, entre Goiás e Minas Gerais. Mas, isso ficará para as próximas postagens, sabe-se lá quando as conseguirei efetuar. Por ora, dei adeus ao Mato Grosso e comecei a me preparar para minha travessia pelo Semiárido do Nordeste, que atravessa, momentaneamente, sua mais pronunciada seca, nos últimos trinta anos. Até lá. 


Acima: Roteiro da primeira fase da expedição, sobre imagem Google Earth
Abaixo: Mapa Google Maps da região sudeste do Mato Grosso



Acima: Aspecto de uma floresta estacional mesclada com cerradão da Reserva Natural da Fazenda Ipanema, em Primavera do Leste


Acima: Vista parcial de uma das veredas da Fazenda Ipanema, que tem servido para a investigação de sua fitogeografia
Abaixo: Capivara, na margem do rio das Mortes, na Fazenda Ipanema



Acima: Dois pássaros disputam território, numa lagoa marginal do rio das Mortes
Abaixo: Borboleta dos campos alagáveis do rio das Mortes



Acima: Trepadeira da família Bignoniaceae, no cerrado da Fazenda Ipanema


Acima: A rodovia BR070 atravessa um dos trechos de reservas indígenas, entre Primavera do Leste e Barra do Garças: Vista hoje incomum de longo trecho de cerrados preservados
Abaixo: O Paredão Grande, que um dia impressionou os viajantes, que cruzavam o sertão, entre Villa Boa e Cuiabá


Abaixo: Imagem-satélite Google Earth da área do Paredão Grande, na Rodovia BR070


Abaixo: Desmoronamento recente de parte do Paredão: Evolução dos relevos de cuestas do Centro-Oeste



Acima: Vista da cidade de Barra do Garças, tomada do alto da Serra Azul, vendo-se o encontro dos rios Garças (direita) e Araguaia
Abaixo: Um periquito-maracanã se prepara para o “café-da-manhã”, na margem do rio Araguaia