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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

VISITA AO ALTIPLANO DA SERRA DA MARIA COMPRIDA – PETRÓPOLIS – RIO DE JANEIRO – JUNHO DE 2018



Tillandsia reclinata - Bromeliaceae

Em junho de 2018, subimos até o altiplano da Serra da Maria Comprida, em Petrópolis, estado do Rio de Janeiro. Nosso pequeno grupo de excursionistas era formado pelo jovem Nathan Gazineu (ver link - Nathan e as Orquídeas https://orlandograeff.blogspot.com/2011/01/nathan-e-as-orquideas.html ); pelo nosso responsável de manutenção do Jardim Fitogeográfico Ezequiel Botelho; e por mim – Orlando Graeff. Nosso principal objetivo era examinar o habitat de uma pequena bromélia de ocorrência extremamente restrita, que vem sendo perigosamente ameaçada pela coleta criminosa – Tillandsia reclinata, planta de natureza litofítica, que somente ocorre num diminuto pedaço de rocha e em mais nenhum outro lugar do planeta.
OBS: posteriormente a esta excursão, surgiram diversas notificações a respeito de novas populações de Tillandsia reclinata, todas elas situadas ali mesmo, na Serra da Maria Comprida, estando elas em fase de investigação.

Há muito, temos nos ocupado em estudar algumas raras espécies de plantas exclusivas do sistema Serra dos Órgãos, ao qual se encontra geologicamente vinculada a Serra da Maria Comprida. Além de tentar explicar esse misterioso padrão de dispersão endêmica restrita, nossa constante preocupação vem sendo investigar a pesada pressão de coleta criminosa, que tem se abatido sobre essas espécies. Mesmo tendo diminuído sobremaneira o interesse por plantas vindas da natureza, por parte dos colecionadores e amantes de plantas, o que se deveu principalmente ao notável desenvolvimento de estoques comerciais, advindos de cultivo, alguns setores não mostram sinais de exaustão, em sua cobiça por plantinhas como essas. Motiva-lhes, sabemos bem, uma vergonhosa vaidade que lhes impede descansar, até que possam dizer aos seus pares que “são alguns dos poucos a possuir determinada planta raríssima”.

Veja sobre isso nossa postagem anterior, em meu blog pessoal - Orlando Graeff Escreveu - que trata desse problema do tráfico de plantas (Link - E se todos fizessem isso? https://orlandograeff.blogspot.com/2013/01/e-se-todos-fizessem-isso-coleta-ou.html )

A coleta de plantas na natureza, com finalidades comerciais, é crime previsto na Lei do Crime Ambiental e pode ocasionar a prisão dos envolvidos. Mesmo assim, mateiros e aventureiros formam hoje uma rede complexa de coletores e traficantes, que assaltam os habitats, em busca de ESTOQUES de raridades, que lhes rendem polpudas quantias, quando remetidas aos referidos colecionadores inescrupulosos. Esse moto nocivo já determinou horrendos prejuízos à vida silvestre, em várias partes do mundo, sendo caso notório o dos rinocerontes africanos, abatidos apenas para a extração da ponta do chifre; assim como dos ainda mais conhecidos elefantes, por conta de seu marfim.

A excursão foi extremamente proveitosa, por nos permitir observar diversos ambientes e espécies que, um dia, foram contempladas pelos decisivos estudos do naturalista Gustavo Martinelli, que desvendaram a botânica e a ecologia dos campos de altitude da região. Do exame das atuais condições daquele altiplano, restou claro o alarmante estado de penúria a que se encontra submetida a pequena Tillandsia reclinata, havendo sinais claros de recente coleta comercial e estando seu remanescente cada dia mais exaurido. Também observamos que os resultados do contínuo pastoreio dos campos de altitude e afloramentos rochosos, por parte de cavalos, assim como o fogo, que continua se alastrando ciclicamente, já colocam todo o ecossistema em risco gravíssimo.

A beleza marcante das paisagens divisadas daqueles campos, assim como sua ainda interessante riqueza florística, em muito recomendariam a implantação de um parque natural, através de uma trilha contemplativa, que seria a única esperança de conservação para seu tesouro de biodiversidade. Não há mais como acreditar que o mero abandono da área possa desestimular invasões furtivas e depredações, apenas confiando na dificuldade de acesso. Somente o manejo ecoturístico e a facilitação da vigilância e combate ao fogo poderão trazer esperanças de salvação ao patrimônio natural local.
OBS2: Também à posteriori a este artigo do blog, a área foi contemplada pela criação de uma Unidade de Conservação denominada MONUMENTO NATURAL DA MARIA COMPRIDA, que já serviu para dar alento à causa de sua conservação. Porém, seu status de proteção é irrisório e ainda faltará intensa fiscalização e implementação de manejos que a protejam.

Veja, através das imagens apresentadas, um pouco sobre o altiplano da Serra da Maria Comprida:


Acima – A Serra da Maria Comprida é geologicamente vinculada à Serra dos Órgãos, muito embora possua individualidade geomorfológica, representando universo ecológico próprio, com pontões graníticos e gnáissicos fragmentados. Escorrimento milenar de água produziu “riscados” típicos e os paredões abrigam flora única


A Seguir – A vegetação do altiplano é um mosaico de afloramentos rochosos e campos de altitude, mesclando assim floras complementares, originadas em paleocampos frios e evoluídas em ambientes rochosos secos e ensolarados


Acima – Não é difícil perceber-se o dano gradualmente imposto à vegetação e à flora pela ocorrência recidiva do fogo criminoso. As manchas de campos recuam e a composição da flora se empobrece, em favor de gramíneas exóticas e de algumas poucas espécies nativas mais tolerantes aos incêndios cíclicos


Acima – Nesta imagem, percebe-se exemplares isolados de rabo-de-galo (Worsleya procera – família Amaryllidaceae) resistindo ao avanço da degradação. Ao fundo, o restante do maciço da Maria Comprida, com a Serra dos Órgãos ao fundo e os Três Picos ao longe


Acima – Embora já bastante pressionados pelo fogo, pela coleta criminosa e pelo pastoreio, persistem populações de rabos-de-galo, que preferem a beirada das cristas rochosas, onde recebem farta iluminação solar e conseguem escapar à coleta criminosa


Acima – Meus dois companheiros de aventura, na Serra da Maria Comprida: Ezequiel Botelho e Nathan Gazineu




Acima – Notáveis populações de bromélias e plantas adaptadas ao ambiente extremo dividem espaço no altiplano da Serra da Maria Comprida. Destaque para belas formas de Vriesea pseudoatra, com folhas vináceas, que contrastam com o restante da vegetação



AcimaPerspectiva assustadora: em primeiro plano, o rabo-de-galo em flores; ao fundo, na borda do campo e debruçado sobre o vale, um exemplar de pinheiro-americano invasor. Essas coníferas exóticas da aliança de Pinus elliottii são extremamente prolíficas e adaptadas ao ambiente de solos rasos, pobres e sob climas frios, o que lhes capacita perigosamente a tomar por completo em futuro médio, a paisagem das cumeadas

Adiante – Flora singular ainda resiste nos campos de altitude e afloramentos rochosos da Serra da Maria Comprida


Acima – Philodendron edmundoi (família Araceae)


Acima – Zygopetalum maculatum (família Orchidaceae)


Nas três fotos a seguir – A bela Prepusa connata, da família Gentianaceae, um elemento florístico de índole originalmente alpina





Acima – Ilha de vegetação rupestre, congregando dois tipos diferentes de bromélias: a imensa e escultural Alcantarea imperialis; e sua parente muito menor Neoregelia longipedicellata, planta muito restrita e rara


Acima – A célebre Amaryllidaceae Worsleya procera, conhecida como rabo-de-galo, planta exaustivamente perseguida pelos traficantes de plantas
Abaixo – Orlando Graeff (autor do blog) entre rabos-de-galo, no alto da Serra da Maria Comprida




Acima – Como resistir ao encanto de Worsleya procera? Nathan se debruça sobre a bela planta
Abaixo – Fotografando as flores do rabo-de-galo




Acima – Quanta honra! Examinando o único exemplar conhecido do bambuzinho primitivo Glaziophyton mirabile (família Poaceae)

Adiante – Consegue ver aquelas minúsculas plantinhas, encarapitadas sobre alguns poucos metros quadrados de rocha nua? São tudo o que a natureza ainda guarda da raríssima bromélia Tillandsia reclinata. É ou não é razão bastante para preocupação, em face da coleta criminosa que sobre ela se abate?


Abaixo – Poucos exemplares resilientes de Tillandsia reclinata buscam proteção sobre a rocha, penduradas acima de centenas de metros de paredões rochosos. O engenho maligno dos coletores furtivos, contudo, não as perdoará, em nome da cobiça nojenta de colecionadores, que pagarão altos preços por algumas plantinhas