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Visita a um fragmento de florestas do Mato Grosso de Goiás – junho de 2024

 Entre 19 e 25 de junho de 2024, estive uma vez mais na região de Pirenópolis, Goiás, em meu caminho para o estado do Mato Grosso. Baseado n...

sexta-feira, 4 de maio de 2012

SERRA DO IBIAPABA – FLORESTAS VERDEJANTES, EM PLENA CAATINGA

                Texto revisado em dezembro de 2024


               No dia 30 de abril, exatamente um mês após ter deixado Petrópolis, no Rio de Janeiro, parti de Alcântara, no Maranhão, atravessando a Baía de São Marcos e ganhando meu caminho, no rumo do Ceará. Neste mesmo dia, me despediria dos domínios dos Cocais, ao ascender uma vasta região de tabuleiros costeiros, em Anapurus, próximo ao Piauí, sobre os quais me surpreenderia, ao ver imensas lavouras de soja, muito similares às que tanto me acostumara a ver, no Mato Grosso. Por sobre essas chapadas, em altitudes da ordem de 100m, ainda podem ser avistadas florestas secas, em muito parecidas com os cerradões do Centro-Oeste, enquanto desapareciam os babaçus.

               Terminei esse novo deslocamento no dia seguinte, saindo de Parnaíba. Foi quando atravessei os contrafortes da Serra do Ibiapaba, voltados ao Piauí, revestidos por florestas secas parecidas fisionomicamente com os carrascos da Serra da Capivara. Realmente, este é o nome pelo qual são chamados esses scrubs lenhosos muito secos, no Ceará. Recomeçava a ver as cactáceas, que haviam sumido de vista, desde que adentrara os Cocais e a Floresta Amazônica, no Maranhão e no Pará. A paisagem muda diametralmente, ao se cruzar a faixa dos 800m de altitude, nas cercanias de Ubajara, onde faria novos reconhecimentos da vegetação brasileira. Desta vez, em florestas densas e úmidas, uma verdadeira exceção, nos domínios da Caatinga.

               A Serra do Ibiapaba se estende por longa fronteira, entre os estados do Ceará e Piauí. Na verdade, representam a borda de um planalto sedimentar, cujas frentes de cuestas se debruçam sobre a depressão seca do centro do Ceará, enquanto que, no rumo do Piauí, se desdobram vertentes mais suavemente onduladas. Em sua linha de cumeada, a Serra do Ibiapaba se eleva na ordem de 900m, contrastando com a baixada coberta por agrestes, onde as altitudes máximas ficam pelos 250m. Sobre essa linha de cimeira, vegetam florestas densas, abrigando flora predominantemente atlântica, que se sustenta da umidade constante, proveniente do oceano, a leste.

               Assim como se observa em altiplanos similares, tais como o de Vitória da Conquista, onde estivera, dias antes, na Bahia, ou mesmo na conhecida Chapada Diamantina ou Grão Mogol, no Norte de Minas, as manhãs são invariavelmente marcadas por espessa neblina e até mesmo chuva fina, que transfere ao solo grande quantidade de água. Essas águas alimentam copiosa rede de riachos, que correm principalmente para o reverso oeste, no rumo do Piauí, embora alguns de seus córregos acabem despencando num paredão íngreme, na direção da baixada cearense, onde formam belas cachoeiras.
A estada em Ubajara foi proveitosa e me permitiu examinar detalhadamente essas densas florestas, em meio à Caatinga. Também foi possível investigar um conjunto de carrascos – florestas secas em miniatura - situados num cânion profundo, na faixa altitudinal dos 700m. Veja adiante as fotografias selecionadas para mostrar a Serra do Ibiapaba.


A Seguir - A Serra do Ibiapaba surge no horizonte, surpreendendo o viajante, acostumado às altitudes irrisórias do Pará e do Maranhão, que raramente ultrapassavam poucas dezenas de metros. São cobertas por vegetação de carrascos, nesta vertente, abrigando flora essencialmente nordestina-atlântica.







Abaixo – Em Viçosa do Ceará, na faixa dos 800m, a floresta já domina a paisagem, como se vê, por detrás das antigas edificações da bucólica cidade.



A Seguir – Os babaçus (Attalea speciosa) ainda estão presentes na flora da mata de altitude. Porém, não conseguem sustentar grau de importância ecológica sequer semelhante ao que atingem na Mata de Cocais, atravessada dias antes.





Adiante – Aspectos inesperados da floresta densa e sempre-verde das cimeiras da Serra do Ibiapaba. Não haverá como negar sua semelhança com florestas tropicais ligadas diretamente à Mata Atlântica.



Sr. Manoel Gomes de Araujo, que me mostrou a floresta de Ubajara










Abaixo - Belas cascatas marcam a paisagem das cuestas do planalto de Ibiapaba voltadas ao Ceará, no Parque Nacional de Ubajara.



Abaixo – Os carrascos são um tipo de florestas secas em miniatura, que revestem a vertente voltada ao oeste, em direção ao Piauí. Num cânion rochoso, no vale da Cachoeira do Frade, abaixo dos 700m, pude examinar a flora de natureza rupestre, entremeada a cascatas de notável frescor.





















terça-feira, 1 de maio de 2012

ALCÂNTARA – MARANHÃO

                Texto revisado em dezembro de 2024


               A Expedição Fitogeográfica 2012 havia alcançado seu ponto mais ao norte, em Belém, capital do estado do Pará. Daí, iniciei meu gradual retorno, tendo como próximos objetivos as vegetações do Nordeste Oriental. Obriguei-me a atravessar, em grande parte, rodovias por que já passara, ao subir, no estado do Maranhão, das quais já andei a falar. Porém, desta vez, segui o rumo do nordeste deste mesmo estado, tendo como próximo ponto de parada a pequena Alcântara, faceando a Baía de São Marcos, em cuja margem oposta se divisa a capital maranhense, São Luis. Cheguei a Alcântara no dia 28 de abril, permanecendo ali por mais um dia, repleto de atividades de campo.

               Alcântara já foi muito famosa pelos projetos aeroespaciais do governo, que têm sua base de lançamento, muito próxima. Mas, em passado ainda bem mais remoto, disputou com São Luis a primazia do desenvolvimento, em períodos coloniais. Apenas os restos dessa opulência podem ser hoje encontrados, alguns em ruínas, em meio à mata que retoma espaço, outros em precário estado de conservação. Mesmo assim, não há como não se impressionar com o que ali existe e que poderia bem receber atenção das autoridades, restituindo a sua glória, agora, para as atividades turísticas, de que a cidade tanto precisa.

               Afora seus elementos históricos, Alcântara reúne patrimônio paisagístico natural de grande interesse e muito me serviu, para interpretar o encontro caótico entre floras Amazônica, Atlântica e Semiárida. O substrato de tudo isso são os sedimentos da Formação Barreiras, uma conjunto difuso de períodos geológicos associados ao Terciário e, posteriormente, duramente trabalhados por forças erosivas descomunais do Quaternário, assim como pelas admiráveis macromarés dos dias atuais. A diferença entre marés altas e baixas chega a inacreditáveis sete metros, na região, formando complexos de mangues sobre rochas, arenitos de praia e cordões de blocos fragmentados, na linha das marés.

               A região representa conjunto valioso de ecossistemas de que os maranhenses deveriam muito se orgulhar de possuir, tanto para mostrar aos visitantes, quanto para lhes prover de farto material de estudos científicos. Encontrei pesquisadores ligados à UFMA, que estudavam as aves abundantes e migratórias da localidade. Minha passagem por Alcântara suplantou as expectativas, não obstante a falta de estrutura oferecida pela cidade para sua exploração. Danilo de Alcântara Santos Furtado, que me guiou pelo intrincado de ambientes naturais e humanos – um filho da cidade, como seu nome expressa – foi mais uma dessas pessoas de boa vontade, que não medem esforços para ajudar os naturalistas, que lhes batem às portas, à cata de conhecimento.

Fotos a Seguir: O encontro de ecossistemas é vibrante, na região de Alcântara. Adiantadamente arrasados, durante o Quaternário, velhos tabuleiros da Formação Barreiras, transformados em outeiros residuais, dividem espaços com as águas que eles mesmo ajudam a represar, contrapondo-se às macromarés do litoral maranhense. Buritizais (Mauritia flexuosa) formam paisagens similares às do Centro-Oeste, mas se perdem, em meio a extensos cocais (Attalea speciosa), que ocupam as cimeiras, assim como carnaubais (Copernicia prunifera), que cercam as várzeas mais largas.





Abaixo: Uma linda espécie de rubiácea, do gênero Isertia, enfeita as matas.



Abaixo: Uma espécie de acantácea, que prolifera nas roças e bordas de floresta, em Alcântara.



Nas Fotos Adiante: Algumas das velhas construções ligadas à rica história de Alcântara, destacando-se azulejaria de fina arte. Infelizmente, pouco resta de pé, prometendo-se desaparecimento breve.











A Seguir: Os sedimentos da Formação Barreiras, conhecidos pela formação de falésias, em boa parte do litoral Nordeste, oferecem cenários ímpares, quando erodidos pelas marés ou recobertos pelos manguezais. Em certos locais, imitam a arte; noutros, sugerem grandes terraplenagens.







Abaixo: O manguezal e nosso barqueiro, Sr. P. O., que nos conduziu, em meio ao labirinto de canais estuarinos, a bordo do Minha Primeira Experiência, seu bem cuidado bote motorizado.





A Seguir: Vistas de Alcântara, ao entardecer; As praias de mar aberto, completamente desertas, em pleno feriado de 1º de maio.







A Seguir: Cenários admiráveis – Palmeiras-carnaúba, quase na linha de arrebentação; Floresta densa, de índole amazônica, nas bordas dos tabuleiros da Formação Barreiras.







segunda-feira, 30 de abril de 2012

BELÉM DO PARÁ – NAS BORDAS DA FLORESTA AMAZÔNICA

                Texto revisado em dezembro de 2024


               Belém do Pará representou o ponto mais ao norte da Expedição Fitogeográfica de 2012, em sua primeira fase. Chegar ao portal da Amazônia foi experiência realmente emocionante, a despeito do estado avançado de destruição de suas florestas, que não se mostraram a mim, senão de muito longe. Por mais que vasculhasse as cercanias da cidade, no curto espaço de tempo em que por ali permaneci, não consegui uma aproximação mais próxima. Tudo o que via era a acelerada expansão da cidade, à qual a floresta nada mais significa que um entrave a ser retirado.

               Mas, o naturalista sempre consegue ler nas entrelinhas, olhar nos interstícios. E não deixei de captar algumas imagens da Mata Amazônica de Várzea, além de alguns de seus elementos botânicos notáveis, que represento, a seguir, nas imagens fotográficas. Além disso, a íntima ligação do povo paraense com a floresta ficava patente, no famoso Mercado Ver-o-Peso, aonde fui “bater o ponto”, como é obrigação de qualquer visitante que venha conhecer Belém do Pará. Aproveitem algumas dessas imagens:


A Flora Amazônica: Bromélias não são tão abundantes quanto na Floresta Atlântica, que visitáramos antes, na Bahia. Mas surgem algumas espécies características, como Aechmea cf. setigera (nas árvores, sem flores) e Aechmea vallerandii (=Streptocalyx poeppigii), que se encontrava florida.





A Seguir: A cidade de Belém fica às margens do rio, cercada de florestas de várzea, nas quais abundam palmeiras-açaí (Euterpe oleracea).





Abaixo: A floresta somente se mostra ao longe, nas proximidades de Belém do Pará, mas impressiona por seu porte e seu viço.


A Seguir: Todas as cores e sabores do Mercado Ver-o-Peso, no Centro de Belém.





















Os aningais - Abaixo - Substituem os manguezais, na região de Belém. São formações homogêneas de Montrichardia arborescens, que parecem florestas, na margem dos rios.


As Chuvas: Não é lenda! Chove copiosamente, praticamente todos os dias, com grossos aguaceiros, que refrescam um pouco, muito pouco, o clima opressivo da capital paraense.